“Quem mais lamenta a falta de atenção dos Estados Unidos com a América Latina é a elite que depende diretamente dela”, diz o diplomata. Para ele, política externa do Brasil é "inconcebível"

 
por Eduardo Maretti, da RBA
 

 
  Marcello Casal Jr./ABr // 'Melhor política dos EUA para América Latina seria o que na época do Nixon se chamava negligência benigna’

São Paulo – O diplomata Celso Amorim considera plausível a tese de que eleição de Donald Trump possa representar uma oportunidade para os países da América do Sul trabalharem por uma integração do subcontinente. Para Amorim, o aparente desinteresse no novo presidente dos Estados Unidos no Cone Sul permite até vislumbrar essa hipótese. O problema é faltarem, hoje, lideranças com essa visão nos países sul-americanos.. 

“Do lado externo talvez até existam condições objetivas: o foco (dos Estados Unidos) está sendo dirigido para outras regiões. Mas o que falta são as condições subjetivas, lideranças. Na América do Sul lamentavelmente estamos, nessa fase, desprovidos de lideranças. A integração sul-americana não vai cair do céu”, afirmou em palestra promovida ontem () pelas Fundações Rosa Luxemburgo e Perseu Abramo. 

Amorim, ministro das Relações Exteriores durante os dois mandatos do governo Luiz Inácio Lula da Silva e ministro da Defesa de Dilma Rousseff, falou também da gestão de José Serra no Itamarati no governo Temer, e do papel do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. "Meirelles é o homem mais forte do governo. É o único que tem uma relação orgânica com o capital financeiro internacional."

Segundo ele, a atual política do Brasil em relação à Venezuela “é inconcebível”. “Um país (Brasil) que é metade da América do Sul ausente de um esforço de mediação num país vizinho, com o qual tem fronteira, é uma coisa diplomaticamente inconcebível, independentemente de você ser a favor ou contra o Maduro”, disse. “Pela primeira vez não houve cúpula do Mercosul.”

O bloco entrou em crise no ano passado, após a postura da “Tríplice Aliança” – Brasil, Argentina e Paraguai – de negar legitimidade à Venezuela para assumir a presidência rotativa do Mercosul, como previa a regra de sucessão.

"Negligência benigna"

A comentar as expectativas na relação de Trump com a América Latina, o diplomata comparou com a política dos americanos no início dos anos 1970, a citar um aparente desinteresse do novo governo norte-americano que, em tese, poderia beneficiar o Brasil. “A melhor política que os Estados Unidos podem ter com a América Latina é o que na época do (Richard) Nixon se chamava negligência benigna’”, lembrou Amorim. “Mas o problema da negligência do Trump é que não está sendo muito benigna.” O ex-ministro mencionou o muro que Trump promete construir entre Estados Unidos e México como o mais emblemático exemplo da “negligência não benigna” de Trump.

Apesar de tudo, Amorim disse que, ao retirar seu país da Parceria Transpacífico (TPP), Trump "acertou". Esse foi um dos primeiros atos oficiais anunciados pelo novo presidente americano. “Trump acertou, para os Estados Unidos e para nós. Para nós foi uma coisa muito positiva, para grande decepção da elite brasileira que estava ansiosa para fazer acordos desse tipo com os Estados Unidos. A grande mídia brasileira não falava em outra coisa”, ironizou.  “Quem mais lamenta a falta de atenção dos Estados Unidos com a América do Sul e América Latina em geral é a elite que depende diretamente dela.”

No entanto, Trump, junto com o Brexit, é hoje o principal símbolo do tema da palestra de Celso Amorim, A globalização do mal-estar. O diplomata se disse impressionado com uma pesquisa divulgada pela BBC segundo a qual 49% dos americanos apoiam as medidas contra a imigração. “Isso é muito perigoso, pode levar a uma regressão muito grande.” Por outro lado, ele criticou parcelas progressistas que, em oposição a Trump, avaliam o período anterior, de Barack Obama, “como se fosse uma utopia democrática”. Ele citou a política do governo democrata no Oriente Médio. “A destruição das estruturas estatais na Líbia ajudou a promover o terrorismo. Essas tendências prosperaram ao encontrar um vazio institucional.”

Segundo Amorim, Trump “é muito ruim” para os Estados Unidos e também para o mundo. Porque, para o mundo, é um mau exemplo. “Se um sexista, racista, xenófobo, consegue se eleger presidente na maior democracia do mundo, isso é um mau exemplo.”

O exemplo reacionário dado pelos eleitores do país mais poderoso do mundo pode ser seguido. Para ele, é justificado o temor de que a imprevisibilidade e as hostilidades demonstradas por Trump, como em relação à China, possam redundar em conflito.

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