Muitos acreditavam que as promessas de campanha de Donald Trump não passariam disso, promessas. Ficariam no passado distante da campanha eleitoral, abafadas pelas dificuldades de se governar. Esdrúxulas e polêmicas, melhor teria sido se assim fosse.

Trump se aproveitou do precedente estabelecido por Obama e tomou diversas iniciativas por meio de ordens executivas durante a primeira semana no poder. De fato, o fortalecimento do poder executivo, em detrimento do sistema de freios e contrapesos estabelecido pela Constituição, é, possivelmente, o legado mais perigoso do ex-presidente.

De pronto, as iniciativas denotam uma retirada dos Estados Unidos do plano internacional. Já foram anunciados a retirada do EUA da Parceria Transpacífico - maior acordo comercial da história - e planos para a renegociação da NAFTA, tratado comercial entre México, EUA e Canadá. Trump já indicou também que pretende rever a participação dos EUA na ONU, com objetivo de reduzir as contribuições financeiras para aquela organização, além de uma moratória e revisão no envolvimento do país com tratados multilaterais diversos, inclusive sobre direitos humanos.

Esse afastamento em relação ao resto do mundo também se manifestou por ações em completa contradição com os princípios e ideais que guiaram a política externa norte-americana nos últimos anos. A imposição de restrições à entrada de imigrantes originários de determinados países de maioria muçulmana, como Síria, Irã e Somália, e a construção de um muro na fronteira EUA-México representam uma drástica reversão não só em relação às políticas esposadas pelos últimos governantes norte-americanos, mas também em relação aos ideais fundadores dos EUA - país de imigrantes, como simbolizado pela Estátua da Liberdade.

Outras iniciativas igualmente preocupantes são o princípio do desmantelamento do sistema de saúde conhecido como Obamacare, sem qualquer substituto em vista, e a autorização para a construção de novos oleodutos - Keystone e Dakota Access - com graves consequências para o meio ambiente.

É verdade que algumas dessas iniciativas dependem da aprovação do Congresso norte-americano para se tornarem realidade. Apesar de o Partido Republicano deter a maioria tanto na Câmara, quanto no Senado, alguns republicanos já sinalizaram que não estão dispostos a seguir Trump acriticamente.

Mais preocupante, entretanto, foi o discurso adotado pela nova administração. Mentiras se multiplicaram. Estranhamente, muitas delas se mostram desnecessárias e fúteis, como por exemplo a ideia de que multidão que acompanhou a posse de Trump foi maior do que a de Obama ou a de que houve milhões de votos ilegalmente registrados, o que explicaria a vitória de Hillary Clinton na votação popular. Desnecessárias porque pouco importam para a capacidade de governar ou de implementar suas prioridades - são questões que poderiam ter ficado no passado. Fúteis porque, facilmente desmascaradas, colocam em risco a já frágil credibilidade do governo eleito.

Assim, fica o questionamento: por que insistir no esforço de enganar o povo norte-americano e, em última instância, o resto do mundo? Duas possibilidades vêm à mente, ambas igualmente preocupantes (e não mutuamente excludentes).

De um lado, Donald Trump já se mostrou facilmente abalável por críticas. Não as aceita e tende a reagir atacando ferozmente seus críticos. Tendo seu ego ameaçado, por aquelas aparentes manchas em seu histórico de vitórias, recorreu ás únicas explicações possíveis, por mais inverossímeis que fossem.

Por outro lado, as mentiras servem a propósitos instrumentais. Distraem a imprensa em relação às medidas efetivamente adotadas pelo governo. Estabelecem um clima de adversariedade entre a nova administração e grandes veículos da mídia tradicional, oferecendo a oportunidade para que Trump se faça de vítima.

Por fim, e principalmente, essas mentiras criam um ambiente de tolerância e indiferença que, por sua vez, geram uma situação de completa apatia. O hábito de Trump fazer declarações falsas ou baseadas em fontes questionáveis se tornou tão corriqueiro, cotidiano, que a população se tornou, em larga medida, dessensibilizada. Ainda mais confusa no ambiente de falsas notícias disseminadas pela internet, uma parte significativa da população acaba abandonando a difícil empreitada de identificar a verdade.

Em dez dias, Donald Trump já deixou clara sua disposição de abalar as estruturas que sustentam a ordem global. O respeito aos direitos humanos e o livre comércio entre as nações foram dois dos pilares mais fragilizados no curso dos últimos dias. Ainda mais em risco, no entanto, se encontra a verdade que terá de enfrentar 4 anos de assaltos ininterruptos.

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