Ao ver o governo Temer afundar na lama da corrupção, boa parte da população pergunta onde estão os manifestantes com camisa da CBF que pediram a saída de Dilma. Por que não saem às ruas após o escândalo Geddel ou após a delação que confirmou a propina de R$ 10 milhões recebida pessoalmente por Temer?

Uma resposta possível é a de que os movimentos que convocaram as manifestações (MBL e Vem pra Rua) são financiados pelos partidos que compõem o atual governo. Outra, também provável, é a de que as manifestações nunca foram contra a corrupção, mas apenas representavam o preconceito contra determinadas políticas de inclusão.

Neste artigo, quero propor uma terceira hipótese, sem negar as anteriores. Acredito que há uma deturpação na maneira com enxergamos as classes sociais no país e, muito mais importante, na maneira como elas próprias se enxergam. Este é um fator fundamental para entender o Brasil de hoje, cuja inércia diante do desgoverno Temer chega aos limites do paroxismo representado pelas tais camisas e patos de cor amarela. 


Para tanto, pretendo me valer do pensamento de alguns pilares importantes, como Sergio Buarque de Holanda, Jessé Souza, Abraham Maslow e Sigmund Freud.A tese de Sergio Buarque de Holanda sobre o homem cordial foi sistematicamente deturpada pela bestialização midiática do país. Ao longo de décadas, o conceito foi traduzido como a expressão fundamental de certas virtudes nacionais, tais como hospitalidade e generosidade, por exemplo. Ou seja, representariam "um traço definido do caráter brasileiro", um povo amistoso e pacífico, o que é uma grande falácia.

Entretanto, por mais que essa equivocada interpretação do livro "Raízes do Brasil" tenha sido desconstruída por intelectuais e pesquisadores, seus resquícios ainda nos perseguem. Parecemos inconformados com a verdadeira definição do homem cordial, que é a de um indivíduo que estabelece relações de intimidade, mas tem horror ao formalismo das leis; que usa as relações pessoais para obter privilégios, mas defende uma falsa meritocracia; que confunde a esfera privada com a pública, mas só enxerga a corrupção no outro. Em suma, um homem que se apropria da Res-pública através de alianças, amizades e casamentos, transformando-a em um quintal da própria casa.

Diante desse quadro, a divisão de classes por renda me parece um grande equívoco. As tradicionais letras A, B, C, D, E não são representativas, pois quanto o indivíduo ganha não define seu lugar na pirâmide social. Diferentemente dos países anglo-saxões, influenciados pela moral capitalista weberiana, aqui no Brasil prevalece o capitalismo dos patos-barões da FIESP, cuja ética fundamental é a apropriação do Estado e a consequente manipulação das classes subalternas através da colonização de seu imaginário.

Há pesquisas bem fundamentadas sobre o tema. O sociólogo Jessé Souza, por exemplo, propõe uma nova nomenclatura para a divisão de classes no Brasil. Para ele, o país estaria dividido em quatro: 1. A classe dos endinheirados, que domina o capital simbólico e efetivo, representando 1% da população. / 2. A classe média, que suja as mãos para que a primeira continue dominante e sonha pertencer a ela, embora nunca seja aceita. / 3. A classe dos trabalhadores, que vive em condições precárias. / 4. A classe dos excluídos, que é considerada uma ralé pelas três anteriores.

Para Jessé, é na segunda classe que está a chave para a compreensão de nossa pirâmide diferenciada. Ela é constituída por profissionais como juízes e jornalistas, entre outros, que lutam não apenas por bens materiais, mas, principalmente, pelos imateriais, como prestígio, admiração, sucesso e demais conceitos construídos pela indústria cultural. E, para isso, empenham-se em agradar à classe dos endinheirados, com a vã esperança de poder frequentar seus círculos e ter acesso ao capital social que almejam. Assim, proporcionam apoio simbólico-cultural à dominação, legitimando suas práticas e sua narrativa.

O raciocínio do professor Jessé lembra, em muitos aspectos, a pirâmide de Maslow, um conceito clássico da psicologia (foto) que baliza as principais aspirações individuais do self. Qualquer estudante é capaz de reconhecer nas ações da classe média brasileira o anseio egoísta da hierarquia de valores comportamentais estudada pelo doutor Abraham Maslow. Também pode perceber traços da psicologia das pequenas diferenças, conforme a definição de Sigmund Freud. A reação à ascensão das classes populares é um nítido exemplo desse conceito, já que significa o incômodo de ter que perceber o outro como alguém que lutará pelo mesmo espaço, pelo mesmo capital social. Alguém que vai se tornando igual, quando o que se quer é manter a diferença.

Não é à toa que boa parte da classe média condena os programas de transferência de renda, classificando seus beneficiários como preguiçosos e enxergando apenas práticas eleitorais nessas políticas. E é pelo mesmo motivo que assistimos a uma rápida ascensão da direita e de suas ideias conservadoras.

O que está em jogo é uma grande disputa pelo capital social que constitui a verdadeira divisão de classes no Brasil. Um capital social que dá acesso a alianças, amizades e casamentos com a finalidade de reprodução dos bens acumulados. Nessa disputa, é fácil perceber o sujeito de classe média seduzido pelas supostas oportunidades concedidas por alguém do andar de cima. Você pode vê-lo esquiando em Aspen, comprando em Miami ou exibindo sua varanda gourmet nas redes sociais, símbolos do status que o fazem acreditar que é diferenciado.

O iludido cidadão acredita que chegou à classe A. Mas apenas hipotecou a alma e embotou a capacidade crítica para viver sua fantasia. Lá atrás, pode até ter sido um sujeito identificado com valores humanistas, o que é muito comum, pois não há ninguém mais reacionário do que um ex-progressista. Hoje, no entanto, ele serve como um eunuco a seus mestres. E, ao abanar os leques do controle do imaginário com seus sonhos de consumo, o vendilhão da classe média suja as mãos para manter os privilégios de quem o controla.

É um cão salivando pelos restos que caem do prato.Mas, como no experimento de Pavlov, não tem a menor ideia de que está condicionado.

* Felipe Pena é jornalista, psicólogo e professor da UFF. Doutor em literatura pela PUC-Rio, com pós-doutorado pela Sorbonne III, foi visiting scholar da NYU e é autor de 15 livros, entre eles o ensaio "No jornalismo não há fibrose", finalista do prêmio Jabuti. O artigo foi publicado no O Globo

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