Há 110 anos, resposta desproporcional do exército alemão exterminaria quase a totalidade da população banto que hoje habita a Namíbia





Wikicommons // [Retrato de família herera, em sua vestimenta tradicional, no final do século 19]

Em 12 de janeiro de 1904, o povo banto dos hereros se revoltou contra o colonizador alemão que ocupava seu território na então África do Sudoeste, onde atualmente se encontra a Namíbia. Os alemães reagiram com uma brutalidade elevada e exterminaram quase a totalidade do povo herero.


O drama herero reflete os horrores que macularam a expansão colonial europeia no final do século 19. Foi também uma antevisão dos genocídios do século 20. No entanto, seria este um genocídio? Não na acepção da palavra, pois não se tratou do extermínio de um povo, culpado unicamente pelo fato de existir.



Apresentou-se como uma resposta desproporcional a um levante armado. Desse tipo de resposta, a história da Europa está tisnada e os povos africanos não foram os únicos a pagar o pato.

Se os colonos alemães castigaram duramente os hereros e deixaram tranquilos os ovambos e os hettentotes, outros povos do sudoeste africano, é que somente os primeiros os atacaram. Isto faz a diferença entre esse massacre e os genocídios ulteriores contra os armênios, os judeus, os ciganos ou ainda os tutsis.

Em primeiro lugar, eram aborígenes de pele acobreada: os hotentotes e os khoisanos. Pertenciam a tribos como os Sans, os Samaras ou os Namas. Esses pastores adaptados ao clima semi-desértico descendiam de populações que habitavam o continente antes da chegada dos negros. Os negros ou Bantus estavam igualmente representados no sudoeste africano. Pertenciam à tribo dos ovambos e àquela dos hereros. Desde meados do século 19 mantinham contactos com missionários britânicos.

Colonialismo europeu


Na primavera de 1883, um jovem mercador alemão, Heinrich Vogelsang, atraca numa enseada, Angra Pequena. Toma contacto com um chefe local, Joseph Fredericks, e conclui com ele a compra de terras vizinhas. Em 12 de maio de 1883, iça a bandeira alemã num mastro da enseada e telegrafa ao sócio, um rico negociante de nome Franz Lüderitz : "Território comprado do chefe contra pagamento único".

Em Berlim, o imperador Guilherme I e seu chanceler Otto von Bismarck seguem com interesse os passos africanos de seus concidadãos. O império alemão não possuía colônias — ao contrário da França e do Reino Unido — e já começava a se inquietar, visto que os territórios disponíveis na África se tornavam raros.

Em 24 de abril de 1884, o governo alemão do chanceler Bismarck informa oficialmente a Londres que daria proteção a Lüderitz e Fredericks. Nascia nessa data o império colonial alemão. O primeiro governador da colônia do sudoeste africano foi um certo doutor H. Goering, cujo filho Hermann se tornaria tristemente famoso ao lado de Adolf Hitler.

Estimulados pelo governador, os colonos alemães fundam uma capital asseada, Windhoek, e desenvolvem vastos plantios empregando trabalhos forçados dos indígenas, roubando o seu gado, e se a ocasião se apresentasse, suas mulheres, o que resultou o surgimento, rapidamente, de parte da população mestiça.

Os hereros foram confinados em zonas tribais e não se beneficiaram das garantias do direito alemão.

Após massacre, minoria na atual Namíbia


É dentro desse contexto que explode a revolta dos hereros. Um grupo de guerreiros comandado por Samuel Maharero ataca os colonos do posto de Okahandja. São massacrados 123 alemães em três dias em condições particularmente horríveis. Seis meses mais tarde, um novo governador, o major-general Lothar von Trotha, desembarca na colônia com um reforço de 3500 soldados. Tinham por missão expulsar os hereros do território ou os exterminar.

Em 11 de agosto de 1904, tropas alemãs comandadas por Von Trotha cercam 7.500 hereros e seu chefe Maharero no platô de Waterberg com armas poderosas. Sobreviventes do massacre são expulsos com seus animais na direção do deserto de Kalahari.

Em 2 de outubro, uma ordem do dia de extermínio (Vernichtungsbefehl) de Von Trotha elimina qualquer esperança de retorno para os hereros. Em Berlim, o chefe do Estado-Maior alemão, o conde Alfred von Schlieffen, escreveu: "O árido deserto de Omeheke terminará o que o exército alemão começou: o extermínio da nação herero".

Em 11 de dezembro, o chanceler alemão Bülow ordena concentrar os hereros sobreviventes em campos de trabalhos forçados e, pouco depois, as últimas terras indígenas são confiscadas e colocadas à disposição dos colonos alemães.

Nos três anos que se seguiram, dezenas de milhares de hereros sucumbiram à repressão, nos combates, à fome e às doenças. De cerca de 100 mil, sua população caiu para perto de 15 mil.

Consequência dessa tragédia, os hereros foram ultrapassados em número pelos ovambos na moderna Namíbia, novo nome do Sudoeste Africano.

Posto pelas Nações Unidas sob mandato da África do Sul em 1945, o território se tornou independente em novembro de 1989.



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