EM JANEIRO DE 1961, Dwight Eisenhower fez seu Discurso de despedidaapós dois mandatos como presidente dos EUA; o general de cinco estrelas decidiu alertar o público americano para esta ameaça específica à democracia: “Nos conselhos de governo, temos de nos defender contra a aquisição de influência injustificada, solicitada ou não, do complexo militar-industrial. O potencial para a ascensão desastrosa de poder indevido existe e persistirá”. Esse discurso antecedeu a escalada de uma década da Guerra do Vietnã, mais duas décadas da paranoia da Guerra Fria, e a era do pós-9/11, momentos históricos que aumentaram de forma radical o poder dessa facção não eleita.

É essa facção que agora está em guerra franca contra o legítimo presidente eleito e extremamente rejeitado Donald Trump. Seus membros recorrem a táticas sujas clássicas da Guerra Fria e aos ingredientes essenciais do fenômeno recentemente denominado como “notícias falsas”.

Seu instrumento mais valioso é a mídia americana, que em larga medida venera, serve, acredita e se alinha com agentes de inteligência ocultos. E os Democratas, ainda em estado de choque com a traumática e inesperada derrota eleitoral e colapso sistêmico do partido, aparentando estar cada vez mais alheios ao bom senso, estão dispostos a – ávidos por – aceitar qualquer acusação, aplaudir qualquer tática e apoiar qualquer vilão, sem observar a natureza barata e sem fundamento desses comportamentos.

Os perigos graves que a presidência de Trump representa são muitos e bem explícitos. Existe uma ampla gama de táticas legítimas e eficazes para combater essas ameaças: desde coalizões bipartidárias no Congresso e desafios jurídicos Constitucionais à insurreição dos cidadãos e contínua desobediência civil agressiva. Todas essas estratégias já viram sua eficácia periodicamente comprovada em tempos de crise política ou excessos de autoritarismo.

Porém, aplaudir a CIA e seus aliados dissimulados com o intuito de subverter unilateralmente as eleições americanas e impor suas próprias imposições políticas ao presidente é pervertido e autodestrutivo. Empoderar precisamente as entidades que produziram as atrocidades mais vergonhosas e a falsidade sistêmica que imperou nas últimas seis décadas é desespero da pior espécie. Exigir que afirmações anônimas não comprovadas – emitidas pelos próprios setores cuja função é fazer propaganda e mentir – sejam de imediato veneradas como a Verdade equivale a um ataque ao jornalismo, à democracia e à racionalidade mais básica do ser humano. E marcar de forma casual adversários nacionais que se recusem a serem chamados de traidores e agentes agentes estrangeiros revela falência moral.

Além de tudo isso, com esses ataques fajutos e obviamente fraudulentos, os oponentes de Trump estão trabalhando em seu favor, recrutando meios de comunicação para liderar o caminho. Quando chegar a hora de expor a verdadeira corrupção e criminalidade de Trump, quem vai acreditar nas pessoas e instituições que se mostraram dispostas a validar todo o tipo de afirmações, independentemente de serem despojadas de fundamentos fatuais?

Todos estes ingredientes tóxicos estiveram ontem patentes no ataque mais baixo e agressivo jamais orquestrado pelo Estado Paralelo contra Trump: conferir credibilidade e revelar publicamente um documento que não foi investigado nem verificado, compilado por um agente anônimo vendido aos Democratas, acusando Trump de uma série de crimes, atos corruptos e conduta privada obscena. A reação a esses acontecimentos demonstra que, apesar de Trump representar perigos graves, não menos graves são essas tentativas cada vez mais loucas, negligentes e destrutivas de minar sua presidência.



DURANTE MESES, com uma clareza sem precedentes, a CIA apoiou incondicionalmente a candidatura de Hillary Clinton e tentou derrotar Donald Trump. Em agosto, o ex-diretor interino da CIA, Michael Morell, anunciou o seu apoio à Clinton no New York Times, afirmando que o “Presidente Putin recrutou Trump como agente involuntário da Federação Russa.” O diretor da CIA e da NSA sob o mandato de George W. Bush, Gen. Michael Hayden, dirigiu-se ao Washington Post, na semana anterior às eleições e após também apoiar Clinton, para avisar que “Donald Trump soa parecido com Vladimir Putin, acrescentando que Trump é “o idiota útil, um tanto naif, manipulado por Moscou, secretamente desprezado, mas cujo apoio cego é aceito e explorado”.

Não é difícil entender por que a CIA preferiu Clinton a Trump. Enquanto Trump denunciou a guerra por procuração da CIA contra Assad, Clinton criticou Obama por restringi-la e queria mesmo estendê-la. Clinton claramente desejava adotar uma linha mais dura que Obama contra os inimigos antigos da CIA em Moscou, enquanto Trump queria uma melhora nas relações entre os dois países. Em geral, Clinton defendeu e tendia a prolongar a ordem militar internacional vigente há décadas, da qual depende a posição de destaque da CIA e do Pentágono, enquanto Trump – por instabilidade e convicção – constitui uma ameaça a essa ordem.

Seja qual for a opinião de cada um sobre esses debates, é o processo democrático – as eleições presidenciais, o processo de confirmação, os líderes do Congresso, os procedimentos jurídicos, o ativismo dos cidadãos, a desobediência civil – que deve determinar a forma como eles são resolvidos. Todas essas disputas políticas foram debatidas às claras; o público escutou todas elas; e Trump ganhou. Ninguém deve ambicionar ser governado pelos senhores do Estado Paralelo.
Chuck Schumer sobre os tweets de Trump atacando a comunidade de inteligência: “Ele está sendo tolo ao fazer isso”.
Contudo, é precisamente esse domínio do Estado Paralelo que desejam os agentes Democratas e personalidades da mídia. Se havia dúvida, elas foram dissipadas ontem à noite.



EM OUTUBRO PASSADO, um agente político e ex-funcionário da agência de inteligência britânica MI6 estava sendo pago por Democratas para procurar escândalos sobre Trump (anteriormente, o agente era pago por Republicanos opostos a Trump). O agente tentou convencer inúmeros meios de comunicação a publicar um memorando extenso repleto de acusações escandalosas sobre traição ao país, corrupção corporativa e aventuras sexuais de Trump, com o tema principal de que Trump servia a Moscou pois estava sendo chantageado e subornado.

Embora muitos tivesses o memorando, nenhum veículo o publicou. Isso se deu porque essas alegações eram anônimas e não vinham acompanhadas de nenhuma forma de forma. Mesmo nesse novo clima de permissividade em que a mídia se encontra, ninguém estava disposto a ser associado ao material jornalisticamente. O editor executivo do New York Times Dean Baquetdeclarou ontem à noite que não publicaria essas alegações “completamente infundadas” porque “nós, assim como outros, investigamos as alegações e não as corroboramos, e acreditamos não ser nosso papel publicar informações que não podemos confirmar”.

O mais perto que esse agente chegou de publicar o material foi quando convenceu David Corn, do site Mother Jones, a publicar um artigo em 31 de outubro contando que “um ex-agente de inteligência de um país ocidental” alegava que “havia fornecido memorandos ao [FBI], baseados em suas interações recentes com fontes russas, argumentando que o governo russo vem tentando cooperar e ajudar Trump há anos”.

Mas como essa alegação era anônima, não acompanhada de provas ou mais detalhes (que Corn não revelou), o impacto foi muito pequeno. Mas ontem, tudo mudou. Por quê?

A única coisa que mudou foi que a comunidade de inteligência decidiu levar a público todas essas informações de forma a torná-las plausíveis. Em dezembro, John McCain forneceu uma cópia deste relatório ao FBI e exigiu que fosse levado a sério.

Na semana passada, os chefes das agências de inteligência decidiram declarar que este ex-agente da inteligência britânica e suas alegações eram suficientemente “confiáveis” para justificar que Trump e Obama fossem informados sobre elas, e, dessa forma, carimbando as acusações com uma vaga, indireta e questionável aprovação. Alguém — ao que tudo indica, inúmeros oficiais — foi à CNN contar que isso tinha acontecido, o que fez com que a CNN fosse ao ar e, com um ar de gravidade e urgência, anunciasse que os mais importantes oficiais de inteligência do país haviam informado a Obama e Trump que a Rússia havia coletado informações que “comprometiam o presidente eleito Donald Trump”.


Esses relatórios alegam que Trump tem profundos laços com a Rússia



A CNN se recusou a especificar a natureza das alegações com o argumento de que não teria sido possível “verificá-las”. Mas, com o documento nas mãos de diversos meios de comunicação, era apenas uma questão de tempo — muito pouco tempo — até que alguém tomasse a frente e publicasse todo o material. O site Buzzfeed o fez rapidamente, publicando todas as alegações anônimas e não confirmadas sobre Trump.

O editor chefe Ben Smith publicou um memorando explicando a decisão, dizendo que, embora haja “fortes motivos para duvidar das alegações”, Buzzfeed “defende a publicação” e que os “americanos podem se definir quanto as alegações por conta própria”. A publicação do documento gerou enorme tráfego (e lucro) para o site, com milhões de visualizações do artigo e leitura do “dossiê”.

É possível discordar da decisão do site Buzzfeed e, de acordo com o New York Times hoje pela manhã, muitos jornalistas discordam. É quase impossível imaginar uma situação em que seja justificável que um veículo de comunicação publique um documento completamente anônimo e não confirmado, repleto de alegações caluniosas sobre as quais o próprio editor chefe do veículo diz haver “fortes motivos para duvidar”, baseado no fato de que querem deixar que o público decida se acredita nelas ou não.

Mas, mesmo se alguém acredita que isso seja completamente injustificável, as circunstâncias de ontem provaram ser o cenário adequado para fazê-lo. Após a CNN mencionar essas alegações indiscretamente, deixaram que sua própria audiência imaginasse os escândalos que a Rússia tinha em mãos para chantagear e controlar Trump. Ao publicar as acusações, Buzzfeed encerrou a especulação. Mais importante ainda é o fato de ter permitido que todos constatassem o quão duvidoso era o documento que havia sido elevado pela CIA e pela CNN ao status de ameaça à segurança nacional.



LOGO DEPOIS de ser publicado, foi revelada a natureza falsa do “dossiê”. Seu autor não era apenas anônimo, mas tinha sido pago por Democratas (e, antes disso, pelos adversários de Trump dentro do Partido Republicano) para levantar escândalos a respeito de Trump. Para piorar, o próprio autor não cita qualquer prova. Em vez disso, contava com uma cadeia de outras pessoas anônimas que afirma terem passado essas informações para ele. Ainda pior, o documento está repleto de erros amadorísticos.


Embora muitas das alegações não tenham sido verificadas, algumas delas podem ser confirmadas. Uma das alegações – que o advogado de Trump, Michael Cohen, havia viajado secretamente para Praga em agosto para se encontrar com oficiais russos – foi categoricamente negada por Cohen, que insistiu nunca ter ido a Praga em sua vida (Praga é o mesmo lugar que os oficiais de inteligência disseram, em 2001, ser o local de um encontro que nunca aconteceu entre oficiais iraquianos e os sequestradores de aviões do 11 de setembro, o que contribuiu para que 70% dos americanos acreditassem, até a segunda metade de 2003, que Saddam havia planejado pessoalmente o ataque de 11 de setembro. Hoje pela manhã, o Wall Street Journal contou que “o FBI não havia encontrado nenhuma prova de que Cohen tivesse viajado para a República Tcheca”.

Nada disso impediu que agentes democráticos e figuras de destaque na mídia tratassem as alegações não confirmadas ou verificadas como se fossem revelações gravíssimas. De Zach Beauchamp da Vox:




Borzou Daragai, do site Buzzfeed publicou uma série de tweets discutindo as sérias consequências dessas revelações, lembrando raramente de mencionar um aspecto jornalístico fundamental em suas reflexões: “se for verdade”.
Enquanto isso, a comentarista progressista, Rebecca Solnit, disse que isso era uma “prova concreta” a respeito da “traição” de Trump, enquanto Markos Moulitsas, do Daily Kos, ecoava o mesmo tema.



Enquanto alguns Democratas pediam cautela – o democrata John Marshalllouvavelmente alertou: “Eu diria que, ao ler “inteligência” bruta, extremamente bruta, as pessoas precisam manter o ceticismo, mesmo que tenham razão em achar que Trump é péssimo”. A reação em sua grande maioria foi a mesma que nos outros casos em que a CIA e seus aliados publicaram alegações não confirmadas sobre Trump e a Rússia: consideraram instantaneamente as afirmações como verdadeiras, além de fazerem declarações de que comprovam a traição de Trump (e qualquer um que expresse ceticismo sendo chamado de agente ou fantoche do Kremlin).



HÁ UM GRANDE RISCO que essa manobra saia pela culatra e beneficie Trump em detrimento daqueles que o opõem. Se uma das graves alegações do “dossiê ” for comprovadamente falsa – como a viagem de Cohen para Praga – muitas pessoas concluirão, com o encorajamento de Trump, que esses grandes canais (CNN e BuzzFeed) e as facções anti-Trump do governo (CIA) estão distribuindo “notícias falsas” para destruir o presidente eleito. Na opinião de muitas pessoas, isso vai desmoralizar – e tornar impotente – as revelações jornalísticas futuras baseadas em irregularidades reais e comprovadas.

Além disso, a ameaça por trás de nos submetermos à CIA, empoderando-a de forma suprema à margem do processo democrático seria, como alertou Eisenhower – um perigo ainda mais grave. O risco de sermos governados por entidades não eleitas e e que não prestam contas à sociedade é autoevidente e grave. Isso é especialmente verdadeiro quando a entidade a que tantos estão louvando tem um histórico de mentiras, propaganda, crimes de guerra, tortura e das maiores atrocidades imagináveis.

Todas as alegações sobre a interferência da Rússia nas eleições americanas e as ligações com Trump devem ser investigadas na íntegra por um órgão credível, e as provas devem ser reveladas publicamente o mais rápido possível. Conforme meu colega Sam Biddle argumentou na semana passada, após a revelação do relatório absurdo da comunidade de inteligência sobre a manipulação russa — que até os inimigos de Putin ridicularizaram como uma piada de mau gosto — a total ausência de provas subjacente a essas alegações significa que “precisamos de uma investigação independente resoluta”. Até lá, as afirmações sem provas disseminadas anonimamente devem ser tratadas com o mais absoluto ceticismo – e não valorizadas com uma credibilidade conveniente.

O mais importante é que as táticas legítimas e eficazes de oposição a Trump estão sendo totalmente eclipsadas por essas cruzadas ad hoc irracionais e desesperadas, sem qualquer estratégia convincente, que retratam os oponentes do presidente como destituídos de razão e seriedade. Nesse exato momento, os oponentes de Trump estão se comportando conforme o crítico de mídia Adam Johnson descreveu: como águas-vivas ideológicas, flutuando perdidas sem rumo, desesperadamente tentando se colar a qualquer barco que passa.

Existem soluções para Trump. Elas passam por estratégias ponderadas e um enfoque paciente nas questões que realmente interessam às pessoas. Quaisquer que sejam essas soluções, não passam certamente por venerar a comunidade de inteligência, implorar sua intervenção e equacionar suas afirmações sujas e obscuras com a Verdade. Essas ações não trazem nada de bom, pelo contrário, já estão causando muitos danos.

The intercept Brasil
Axact

Ronaldo

Blogueiro e livreiro, reproduzo as notícias que considero interessante para os amigos e disponíbilizo meu acervo de livros para possíveis clientes. Boa leitura e boas compras.

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