Símbolo da resistência dos secundaristas, a jovem reflete sobre o movimento estudantil e critica o Escola Sem Partido.



Da tribuna da Assembleia Legislativa do Paraná, uma jovem franzina assume o microfone e enfrenta com invejável desassombro uma plateia de vetustos engravatados. “De quem é a escola? A quem pertence a escola?”, pergunta a garota, com a voz ainda embargada, enquanto cita o inciso 6º do artigo 16 do Estatuto da Criança e do Adolescente, a garantir aos menores o direito de participar da vida política. “Acredito que todos aqui já saibam a resposta. E é com a confiança de que vocês conhecem essa resposta que eu falo da legitimidade desse movimento.”

Iniciava-se naquele momento um dos mais marcantes discursos de 2016, visto por milhões de brasileiros, a partir de vídeos replicados nas redes sociais. Personagem-símbolo do movimento estudantil que ocupou mais de mil escolas pelo País, Ana Júlia Ribeiro, de 16 anos, emprestou voz e corpo à rebelião dos estudantes secundaristas contra a sorrateira reforma do Ensino Médio, proposta pelo governo Temer sem qualquer consulta, e contra o congelamento dos gastos sociais por 20 anos.

Encerrada a jornada de ocupações, a jovem ficou com a agenda tomada por aulas de reposição, mas reservou um horário na tarde de um sábado para conversar com CartaCapital. Reafirmou as razões que levaram os estudantes a se insurgirem contra as mudanças, criticou a censura implícita na proposta da Escola Sem Partido e conclamou os colegas a não esmorecer diante de eventuais derrotas no Legislativo. “Não podemos lavar as mãos. A luta por um ensino de qualidade está só no começo.”

CartaCapital: Como você se envolveu com o movimento estudantil? 

Ana Júlia Ribeiro: Esta foi a minha primeira experiência. Antes, havia participado de algumas discussões na escola, tentei montar um grêmio, mas não deu muito certo. Passei a me engajar para valer, quando o governo apresentou a Medida Provisória da reforma do Ensino Médio.

Houve um grande falatório, ninguém sabia exatamente o que iria mudar. Começamos a discutir os impactos, participar de manifestações. No início de outubro, houve a ocupação da primeira escola pública, a Arnaldo Jansen, em São José dos Pinhais (região metropolitana de Curitiba).

Então passamos a considerar essa ideia. Fizemos várias assembleias até ocupar o nosso colégio, o Senador Manoel Alencar Guimarães.

CC: Quais os principais problemas da reforma proposta pelo governo?

AJR: Em primeiro lugar, não houve qualquer tipo de consulta popular. A Medida Provisória estabelece o ensino em tempo integral, mas muitos estudantes da escola pública trabalham. Se não trabalham formalmente com carteira assinada, o fazem por fora, para complementar a renda da família. Infelizmente, para muitos, a prioridade não é estudar, é trabalhar.

A principal causa da evasão escolar é essa, não dá para ignorar a realidade social. Além disso, causa preocupação o fim da obrigatoriedade para ensino de algumas disciplinas, como filosofia e sociologia. Sabemos que, se deixa de ser obrigatório, será deixado de lado. Hoje, o espanhol é optativo, e a gente não tem oferta. Só uma ou outra escola oferecem.

CC: Os estudantes secundaristas também se manifestaram contra a proposta da “Escola Sem Partido”. O que está por trás dessa iniciativa?

AJR: Nenhuma escola tem partido. A proposta não trata disso, e sim da retirada do ensino de política. Ela impede o professor de falar sobre o tema, de ter autonomia em sala de aula. Não pode expor qualquer opinião, o debate fica inviabilizado.

Nenhum professor fala de política partidária, mas de temas políticos do dia a dia, como a questão da homofobia, do racismo. Com essa censura imposta aos professores, há uma tendência de reforço da visão conservadora na sociedade.

CC: E a emenda constitucional que congela os gastos públicos por 20 anos. Por que ela representa uma ameaça à educação pública? 

AJR: Ela trata a educação como gasto, e não como investimento. E a redução desse investimento vai retirar um leque de oportunidades aos estudantes. Mesmo em excelentes escolas públicas, você encontra graves problemas estruturais, nos banheiros, nas salas de aula, em todos os ambientes.

A falta de recursos é evidente. Muitas escolas não têm variedade de prática esportiva. São apenas duas aulas por semana, então só tem futebol e um pouco de vôlei, queimada, aquilo que todo mundo conhece. Não tem tempo suficiente e não tem material.

Há poucas atividades no laboratório de informática e, quando elas ocorrem, precisamos dividir o computador com dois ou três colegas. Muitos computadores nem sequer funcionam. E olhe que estou matriculada em uma das dez melhores escolas públicas de Curitiba, sou privilegiada. Nas áreas mais periféricas, o cenário é bem mais complicado.

CC: O incisivo discurso na Assembleia Legislativa do Paraná deixou muitos políticos surpresos, talvez até constrangidos. Algum deles a procurou para conversar após esse episódio?

AJR: Na verdade, nenhum dos parlamentares que eventualmente se sentiram ofendidos veio falar comigo, nem mesmo para entender melhor o que eu quis dizer. Ninguém me perguntou: “Por que você vê isso dessa forma?” Evitaram contato, ignoraram completamente.

CC: Foi um discurso marcante, que recebeu muito destaque na mídia. Por conta desse seu ativismo político, das posições que manifestou na tribuna, você chegou a sofrer algum tipo de hostilidade?

AJR: Nas redes sociais sofri muitos ataques de movimentos contrários, que falavam da minha própria integridade pessoal, que colocavam isso em jogo. Usavam vocabulário de baixo calão, ataques rasteiros. Nas ruas, não houve hostilidade.

Durante a ocupação, o maior temor era aparecer um movimento contrário e criar algum tipo de confusão. Isso ocorreu em algumas escolas da região central, mas não na minha.

CC: No meio desse processo, houve aquele trágico episódio do estudante Lucas Mota (assassinado por um colega dentro de uma escola ocupada). Você chegou a conhecê-lo, tinha contato com ele?

AJR: Não conhecia o Lucas, mas tínhamos amigos em comum. Ele era de outra escola, próxima da minha. Fui ao funeral em solidariedade. Fiquei abalada, ele tinha a mesma idade que eu. O pior foi o uso político desse episódio.

Usaram a morte dele para desqualificar as ocupações, para criminalizar o movimento. É um absurdo. Ele é vítima da violência, não o autor. Eu me senti totalmente ofendida com isso.

CC: Como é a relação com os movimentos estudantis institucionalizados, a exemplo da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas ou da União Nacional dos Estudantes? 


AJR: Existia muita resistência dos autonomistas. A verdade é que a maioria dos estudantes não tinha contato nenhum com a Ubes ou com a UNE. Eu mesma nunca tive. Até as ocupações, nem sequer sabia da existência da União Paranaense dos Estudantes Secundaristas.

Muitos acham que essas instituições deixaram um pouco de lado os interesses dos estudantes, para trabalhar em campos maiores. É algo distinto. Eles ajudaram a gente, claro que precisamos muito do apoio deles. Mas dizer que eles estão na escola com a gente, que eles começaram a fazer a mobilização, é um pouco difícil.

CC: Você está prestes a prestar vestibular. Definiu o curso que pretende fazer? Tem ambição de se engajar na política partidária?

AJR: Pretendo cursar Direito. Meu pai é advogado, claro que tem um pouco de influência, mas a minha decisão não é para agradá-lo. Se meu pai fosse pedreiro ou médico, provavelmente faria a mesma escolha. E não, não tenho ambição de participar da política institucional. Não me vejo na carreira política. Quero continuar atuando como agora.

CC: Nas eleições municipais um grande número de cidadãos não compareceu às urnas ou optou pelo voto branco ou nulo. Isso é sintoma do quê?

AJR: De um profundo desencanto da população com a política tradicional. Em várias cidades, a soma das abstenções e dos votos brancos e nulos superou a votação do prefeito eleito. Muitos só votaram porque é obrigatório, não se sentiam representados pelos candidatos.

No Brasil, não se fala muito de política, desconhece-se a Constituição. E muita gente entra para a política sem um propósito claro. Não refletem: “Espera aí, eu vou me candidatar, mas para que estou me candidatando? O que quero mudar? O que dá para fazer melhor?” Precisa ter um propósito.

CC: Qual mensagem você gostaria de deixar para a juventude em 2017?

AJR: Não abandonar a luta. Às vezes, a gente acha que a pauta está vencida, que não tem mais o que fazer. Acabou ali? Não! Você precisa continuar a lutar, muitas coisas precisam melhorar ou se manter, se elas forem boas. Se não cuidarmos, há o risco de perdermos o que temos. Não podemos lavar as mãos. A luta por um ensino de qualidade está só no começo.
 

 Fonte: Carta Capital

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