Cumprimento de ordem judicial de reintegração de posse tem ação da PM, tensão e rojões
Houve protestos por estadia na delegacia de líder do MTST, para quem prisão foi "política"



Terreno desocupado no leste de São Paulo. ROVENA ROSA AGÊNCIA BRASIL

ANDRÉ DE OLIVEIRA


Foram cerca de oito horas de detenção até a liberação de Guilherme Boulos, coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), e José Ferreira Lima Junior, 25 anos, morador da ocupação Colonial, que abrigava 700 famílias. Os dois foram detidos ainda na parte da manhã desta terça-feira (17) em meio à uma ação de reintegração de posse do terreno em que Lima Junior, conhecido como Emerson pelos amigos, vivia faz cerca de um mês. Entre a prisão e a soltura dos dois, informações desencontradas sobre o motivo das detenções proliferaram. Ao final do dia, o que há de mais concreto é que durante a reintegração, apoiada pela Polícia Militar (PM), bombas e rojões foram lançadas de um lado e de outro e, no meio da situação tensa, os dois foram levados para a 49ª Delegacia de Policia.

Segundo Boulos, ao ser preso ele teria ouvido de um capitão da PM, sem identificação, que ele “já era conhecido”. “Ele falou de outras manifestações antigas, em especial de uma em frente à casa do Michel Temer [que ocorreu no final do ano passado], em que ele também comandava a tropa de choque”, disse. O advogado de Boulos, Felipe Vono, também relata que durante a reocupação este mesmo capitão apontou para uma viatura danificada e disse que Boulos seria preso por incitar violência contra a polícia. “Já na delegacia, ele disse que não chegou a ver o Boulos pedir para que bombas fossem jogadas contra policiais, mas que por ele ser uma ‘referência ideológica’, ele era culpado”, disse Vono.


Durante o dia, o secretário de Segurança Pública de São Paulo (SSP), Mágino Alves Barbosa Filho, disse ao site O Antagonista que Boulos foi levado à DP “após ter disparado um rojão contra a tropa da PM”. Em nota da Secretaria, que corroborava sua versão, a detenção do coordenador do MTST também foi justificada em razão de uma suposta “incitação à violência” e “desobediência”. Hora depois, contudo, a SSP, em outra nota, não mencionou mais o rojão, dizendo apenas que após a assinatura de um Termo Circunstanciado de resistência, Boulos e Emerson foram liberados. Segundo o código penal, o ato de resistência é caracterizado por oposição “à execução de ato legal, mediante violência ou ameaça a funcionário competente para executá-lo ou a quem lhe esteja prestando auxílio”.

Boulos e Suplicy na delegacia. ROSA ROVENA AGÊNCIA BRASIL




“O secretário vai ter que se explicar, porque sequer os policiais que me prenderam falaram sobre esse rojão. Para mim, ficou claro que a prisão foi um ato evidentemente político, com intenção de intimidar os movimentos populares”, disse Boulos ao ser liberado, após uma jornada em que a delegacia virou ponto de visita de políticos de esquerda. A detenção de um expoente progressista colunista de um dos maiores jornais, a Folha de S. Paulo, e um aliado do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva levou a manifestações na Internet. Tanto Lula como a ex-presidenta Dilma Rousseff se manifestaram.

Segundo a coordenadora do MTST, Natália Zermeta, os dois terrenos da ocupação, que formavam um grande bairro de ruas de terra, constituído há cerca de dois anos, não tinha ligações com o movimento. “Boulos estava no lugar não como uma liderança, mas como alguém que poderia intermediar uma saída melhor para a situação”, diz Zermeta. O pedido do MTST, segundo coordenadores, era para que os oficiais de justiça esperassem até 10h da manhã, quando um pedido do Ministério Público para suspender a reintegração seria analisado por um juiz.

Retirada de 700 famílias

Talita, desalojada nesta terça. A. O.


As cerca de oito horas de detenção de Boulos e Emerson foram suficientes para que as 700 famílias que viviam no terreno fossem desalojadas. Talita Maçal de Alencar, 26 anos, mulher de Emerson, ficou o dia inteiro divida entre a delegacia, onde esperava notícias de seu marido, e sua casa de madeira em que estavam todos os seus pertences. Faltando trinta minutos para Emerson ser liberado, contudo, ficou sabendo por telefone que a casa tinha sido demolida e que seu tio, com quem vivia no mesmo lote, tinha conseguido salvar apenas uma geladeira e roupas. “Cama, mesa, armário e toda a madeira da casa, que podia me servir para outra ocupação foram embora”.

Na parede da frente da cama de Talita e Emerson, um capacete de obras dele descansava há um mês, sem serventia. Era um símbolo da razão de estarem ali. Tanto ele como ela estavam desempregados e, por isso, optaram por sair da casa alugada em que viviam e ir para a ocupação, onde, segundo eles, não pagavam nada. “Eu tinha preconceito com quem vivia desse jeito, não entendia, mas só estando na pele para saber”, disse Talita. Com dois filhos vivendo em Campos Sales, no Ceará, de onde saíram faz três anos, o casal recebeu apoio do MTST e de advogados ativistas que intermediaram as conversas com a Polícia durante o dia. A história deles é bem parecida com muitos das 700 famílias da ocupação Colonial: desemprego e, agora, sem um lugar para ficar, falta de alternativas. “Não houve nenhum tipo de cadastramento para que a gente fosse colocado em outro lugar ou recebesse bolsa aluguel, então eu ainda não sei o que vou fazer”, disse Talita.

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