(Foto: Alex Ferreira / Ag. Câmara)

No DCM.

“O PT foi capaz de indicar ao STF ministros que pensam o oposto do que acreditamos”: o deputado Paulo Pimenta fala ao DCM

Postado em 24 Jan 2017por : Diario do Centro do Mundo

POR ROBERTO DE MARTIN, jornalista, ator, mineiro de Matias Barbosa e pai da Eva.

O deputado federal Paulo Pimenta, do RS, acha que o PT deve um pedido de desculpas formal à sociedade e à sua base histórica.

Segundo ele, os erros cometidos devem servir para buscar novas formas de atuação que recuperem a imagem desgastada.

Pimenta acredita que o impeachment de Dilma “faz parte de algo maior” e foi comandado por uma elite financeira internacional que, atendendo a interesses de um novo ciclo do capitalismo, não via mais no PT um parceiro para os negócios.

“No auge da crise, a gente apanhando de todos os lados, eu abria a revista Veja e encontrava páginas do Banco do Brasil, páginas da Petrobras”, diz Pimenta.

“É um negócio surreal. Não é nem uma questão de ser republicano, é um servilismo”.

Ele deu a seguinte entrevista ao DCM:

Quais as expectativas do PT para a eleição do presidente da Câmara?
Setores do PDT, setores da Rede, uma constituição de uma frente de esquerda mais ampla possível.

Eu acho que a sociedade brasileira foi muito generosa conosco. Os setores progressistas que saíram às ruas em defesa da democracia, em defesa da Dilma, em defesa do Lula, muitos deles são seguimentos de setores que tinham se afastado de nós, muito por conta de erros nossos.

Você pode até pela lógica fazer aquilo que na teoria marxista chama-se cretinismo parlamentar — buscar argumentos e elementos que justifiquem determinadas coisas.

Para um partido que se pretende uma referência de uma esquerda transformadora, não dá para você tentar justificar o voto em alguém que foi relator do processo de impeachment. Uma aliança com um parlamentar que representa na Câmara o governo Temer e tudo aquilo que nós refutamos é algo absolutamente insustentável do ponto de vista da nossa relação com a sociedade.

Eu considero que seria uma incompreensão enorme o Partido dos Trabalhadores adotar uma posição que desconsidere essa importante oportunidade de restabelecer uma relação de confiança que a sociedade está nos dando.

E eu não voto em golpista em nenhuma hipótese. Não voto e não apoio e estou trabalhando para que essa seja a posição do PT.

O nome que se apresentou é o de André Figueiredo, do PDT do Ceará. Não precisa ser ele, mas eu acho que a gente deve fazer um esforço para tentar chegar na eleição com essa união, com esse campo da esquerda junto conosco.

Por que acha que o STF “estabilizou” o golpe?
Porque ele é parte do golpe. Da retirada da Dilma. Todo mundo sabe que a Dilma é honesta. Então, todo mundo sabe que isso foi um artifício jurídico utilizado para resolver uma questão política que foi a derrota do Aécio na eleição. Era preciso fazer uma mudança de rumo da economia, abrir o capital das grandes empresas brasileiras, mudar a política do pré-sal, da Previdência.

Mas qual é o interesse do STF nisso tudo?
O STF, em parte foi omisso, em parte foi cúmplice, para viabilizar os interesses de classe que estão por trás desse negócio. É um grande negócio. A natureza do golpe é econômica e envolve a manutenção de privilégios a uma espécie de casta no Brasil.

Qual o papel do Temer em relação ao escândalo envolvendo a Caixa Econômica Federal?
A presença do PMDB nos governos sempre foi uma oportunidade de negócios e a Caixa foi uma área que o governo do PT cedeu muito para o PMDB. A área de loterias, relacionamento com pessoas jurídicas, relacionamento com governos. O Temer sempre teve três caras, que na minha opinião foram os três caras-chave dele, os três mosqueteiros dele: Geddel, Eliseu Padilha e Moreira Franco. Quando o Temer estava na presidência do PMDB, esse trio operava com o Padilha.

O Eduardo Cunha montou um esquema que ele comandava. Então, o PMDB operava, na minha leitura, com esses três núcleos e uma figura que administra e controla tudo isso, o Temer, durante muitos anos presidente do PMDB. A Caixa Federal se tornou um grande negócio para eles.

E tem determinadas figuras que são chaves nessa história para poder entender. Por que o Geddel se tornou uma pessoa importante?
Como ele estava numa área estratégica para a liberação de grandes volumes de recursos [Geddeal era vice-presidente de Pessoa Jurídica da Caixa Econômica Federal], e operava em sintonia com o Eduardo Cunha, essa relação era fundamental porque o Eduardo Cunha precisava manter a base dele unida na Câmara dos Deputados, à base de dinheiro. Eu, por exemplo, estou convencido de que foram essas ajudas de dinheiro que viabilizaram o golpe, os votos dos deputados e senadores.

Quais ajudas?
Financiamento de campanhas, ajudas em determinados períodos, ajudas aos parlamentares, aos seus candidatos, operadas por todo esse esquema.

O PT também recebeu?
O PT tem um processo paralelo a isso. Ninguém do PT precisou ter a ajuda de alguém para votar no governo ou para apoiar o governo. Por exemplo, qual é a necessidade de se ter um “agrado” para um deputado do PT para que ele apoiasse o Lula ou a Dilma, as políticas do governo?

E, do meu ponto de vista, o que juntou a base para viabilizar os votos necessários para cassar a Dilma na Câmara e no Senado, no limite, foi a expectativa de que tirando a Dilma pudesse ser oferecida uma proteção a tudo isso. O risco, o temor que existe que com os desdobramentos das investigações estes esquemas de financiamentos comandados por essa cúpulas revelem o que é que tinha por trás.

Por que o PMDB ficava com essas indicações? Era pré-acertado?
Claro. Isso era a moeda de troca para a governabilidade. O PMDB conhece muito a “máquina”. Figuras como um José Genoino, como um José Dirceu, tinham força política e peso político que ajudavam o Executivo a administrar uma base, e você tinha o estofo da força política do Lula, que em última análise se sustentava…

A indicação da Dilma para concorrer à Presidência foi um acerto pelo lado ético e um erro do ponto de vista político?
Não. Naquele momento a Dilma era o melhor nome que nós tínhamos. Tanto é que a vida provou isso, porque ela se mostrou viável, do ponto de vista eleitoral, e ganhou a eleição.

Qual era o papel do Eduardo Cunha no Congresso, antes de ser presidente?
O Eduardo Cunha, primeiro, era o líder do PMDB. Então, era ele quem indicava os relatores de todas as medidas provisórias. Imagina o seguinte: chegava aqui um projeto sobre um novo regime especial do setor metal-mecânico brasileiro. “Ah, vamos reduzir o imposto em cinco pontos percentuais”. Aí chegava o Eduardo Cunha e dizia o seguinte: “Não. Vamos reduzir para 3%”. Os representantes do setor respondiam: “Isso vai nos dar um prejuízo de 10 bilhões”.

Aí o Eduardo Cunha dizia: “está bem, vamos voltar para 5%, mas você vai ter que dar uma ajudinha aqui, para o PMDB e para o meu esquema”. O Eduardo Cunha negociava com cada setor, arrecadaram dinheiro que ninguém nem sabe quanto. E sem precisar fazer nada, só maldade.

Por que muitos que se beneficiaram das políticas implantadas pelos governos petistas pediram a saída da Dilma?
Políticos de países que têm uma tradição de esquerda mais forte, como Cuba e Venezuela, costumam dizer o seguinte: aumentar consumo sem aumentar consciência nunca deu certo em lugar nenhum. Porque a tendência do cidadão no mundo em que nós vivemos, em função da publicidade, do contexto capitalista, é achar que quando as coisas melhoram, é por mérito dele, é a chamada meritocracia. O “eu”, “eu batalhei, eu trabalhei, eu consegui botar o meu filho na universidade, eu consegui comprar um carro”, e quando a crise vem a culpa é do governo.

Nós cometemos um erro, do meu ponto de vista, gravíssimo. Um partido de esquerda, com a tradição do PT, chegou ao governo e abdicou de ter iniciativa junto com os movimentos sociais, com sindicatos, com as organizações, com as universidades, que elevassem o nível de consciência, de capacidade crítica da população brasileira a respeito do mundo em que vivemos.

E quando eu digo que nós erramos não é o governo apenas. É muito mais do que o governo. São os partidos, as instituições, as organizações, que reproduziram essa lógica da meritocracia. Tanto é que do ponto de vista da organização da sociedade civil, quando veio o golpe, os espaços de resistência e de defesa da democracia na sociedade não existiram.

Houve erro também em manter os aportes financeiros milionários para as empresas da chamada grande mídia?
Veja bem, existe uma coisa bem diferente entre chegar ao governo e chegar ao poder. Chegar ao governo foi o que nós fizemos. Passamos uma temporada lá. Agora, o poder envolve também os outros poderes, o Legislativo, onde nós nunca tivemos a hegemonia, o Judiciário.

Hoje, dos onze ministros do Supremo Tribunal Federal, oito foram indicados por nós. Não estou falando que deveríamos ter tido lá uma base petista. Mas nós fomos capazes de indicar para o STF um conjunto de ministros e ministras que pensam de maneira antagônica a tudo aquilo que nós acreditamos. Representam valores reacionários, de direita.

Nós tivemos uma política absolutamente tímida em relação às rádios comunitárias, engolimos um discurso da tal de mídia técnica (baseada na medição parcial da audiência), criamos uma relação ilusória de achar que aquele período de bonança, da atividade econômica, de crescimento, era algo perene.

A Dilma foi capa da Veja, o Lula foi capa, foram para a bancada do Jornal Nacional. Achavam que iam conseguir manter uma certa neutralidade tratando bem a grande mídia. E isso tem a ver, um pouco, com a própria formação da cultura brasileira. Se você chegar na Argentina, eles têm o San Martín, eles reverenciam Bolívar, figuras históricas que lutaram contra os exploradores, pelo fim da colônia, pelo restabelecimento da democracia.

No Brasil, quem são as referências de mudanças importantes? A luta pela independência foi uma sucessão do trono português, com Dom Pedro, que deu um golpe para continuar. A proclamação da República foram dois generais, Floriano Peixoto, Marechal Deodoro, conservadores. A abolição da escravatura entrou para a História como um ato de generosidade da princesa Isabel.

Também essa narrativa de que a ditadura militar na Argentina foi um horror e que no Brasil foi ruim, mas nem tanto, é ilusória. Tanto que nunca teve aqui um processo de responsabilização criminal, como teve na Argentina e no Chile. Recuperação da memória, da história. Essa ideia que tem no Brasil da conciliação de classe, do mito do homem cordial. Então, nós tivemos uma oportunidade de ficar 13 anos no governo e não tem um ministro do STF que seja reconhecido, não como um cara do PT, mas um cara progressista.

Por falta de opção?
Claro que não. Porque achava que tinha que agradar determinados setores, dialogar com determinados setores, nesse mito da conciliação de classe eterna. Foi o que foi feito com a própria mídia, que faz parte disso tudo.

Medo de perder o poder se não fosse refeita esse pacto com a elite?
Houve uma lógica da governabilidade a qualquer preço, como se nós fôssemos ficar no governo para sempre. As pessoas perderam a dimensão de que aquilo ali era um processo de disputa permanente, complexo, transitório, com o resultado em aberto.

Tanto é que nós não criamos consciência, não criamos estruturas de resistência, não mexemos na reforma política para não brigar com os aliados, não mexemos na questão da mídia, não mexemos na questão do Judiciário.

Então, o que que ficou? Depois de 13 anos de poder, até poderíamos dizer que tem uma cultura diferente no Brasil, uma capacidade crítica diferenciada? Sim, tem, mas como isso vai ser absorvido no tempo, daqui a 20 anos?

O maior erro que nós tivemos foi esse. E mais, o governo foi recuando. Nós não tivemos coragem de aprovar um projeto para criminalizar a homofobia. No Brasil, que é o país que mais mata travesti, homossexual, no mundo. Por quê?

Porque tinha meia dúzia de caras da bancada evangélica que estavam na base do governo. Aí o governo recuava de pautas históricas para manter uma relação com uns caras que depois, num outro momento, estavam na linha de frente do golpe. Com medo de discutir a questão de gênero nas escolas, com medo de avançar numa política de reforma agrária, com medo de avançar numa política de demarcação de terras indígenas. Sempre com essa ideia de que não podíamos desagradar os aliados, a base.

O cara que era o braço direito do ministro do Planejamento é o atual ministro do Planejamento, Dyogo Henrique de Oliveira. Tem a Secretaria Nacional de Segurança Pública, a Regina Miki, oito anos da Dilma. Nós denunciamos que todas as políticas estavam erradas, destruindo tudo. Onde está a Regina Miki agora? Se desfiliou do PT, é a vice-presidente de Segurança da Petrobras, nomeada pelo Pedro Parente. Entendeu?

O Ministério da Educação em vários cargos estratégicos com pessoas que a Dilma colocou no governo. E não eram cotas para outros partidos. Nos espaços do próprio PT. Então, evidente que nós temos que fazer um balanço disso tudo. Não com o objetivo de caça às bruxas, mas para olhar para a frente e tentar fazer de outra maneira.

Em relação à mídia, novamente, como enfrentar o monopólio? Como conscientizar a população sobre isso?
Algumas pessoas falam, “ah, que pena que nós não fizemos um trabalho de fortalecimento e consolidação desses espaços, porque hoje nós estaríamos muito melhor”. Continuamos despejando rios de dinheiro.

No auge da crise, a gente apanhando de todos os lados, eu abria a revista Veja e encontrava páginas do Banco do Brasil, páginas da Petrobras. É um negócio surreal. Não é nem uma questão de ser republicano, é um servilismo. É difícil até de entender.

Agora, eu acho que está sendo retomado no Brasil um debate sobre isso e o PT precisa também ter a humildade de aprender com seus erros políticos, com seus erros de conduta.

Eu acho que o PT deve um pedido de desculpas formal à sociedade brasileira e à base que historicamente manteve com ele uma relação. Eu acho que a opção que o PT fez de se transformar num partido que passou a ser financiado majoritariamente por uma mesada das grandes empreiteiras, das grandes empresas, é algo que precisa ser reconhecido como um equívoco histórico e conceitual.

É impossível você pensar num projeto libertador, transformador de uma sociedade, sendo sustentado pelas maiores empresas do Brasil. E pelos bancos. É evidente que isso torna o seu projeto limitado. Fortalecer um projeto de constituir uma nova forma de atuação, que respeite novos protagonistas.

Hoje tem uma gama de movimentos horizontais, muitos deles não são sindicatos, não são entidades, não são associações. Cada vez mais surgem novas formas, especialmente da juventude, do movimento de mulheres, do movimento negro, que se organiza de outra forma. Tem que descobrir uma forma de se relacionar dentro desse processo, e o PT de ser um dos protagonistas. Não obrigatoriamente hegemônico. Até para reconstruir um caminho que foi bastante dinamitado em toda essa caminhada.

O Rodrigo Janot decepcionou?
Infelizmente, o Janot, para mim, provou a suspeita que criei a respeito da conduta dele: a seletividade. Os Panamá Papers mexem com Globo, PSDB e interesses que estão fora do foco principal daquilo que interessa a eles. Imagina o Ministério Público Federal bancar uma investigação que traga à tona todos os esquemas que envolvem Globo, CBF, os grandes esquemas da corrupção que estão aí.

Quando do escândalo do HSBC, também entregamos um dossiê ao MPF, que não fez nada. A operação Zelotes, a denúncia original, os grandes esquemas da Zelotes, quando chegou a conselheiros do Tribunal de Contas e em parlamentares, tudo isso foi empacotado e mandado.

Foi gerado um inquérito, a relatora era a ministra Cármen Lúcia, e a parte do inquérito que envolve pessoas com foro privilegiado está até hoje em diligências.

O STF mudou o foco em nome da estabilização do golpe. Você tem um foco, que é o PT, aliados do PT, o Lula, a Dilma. E você precisa oferecer uma certa estabilidade. É mais ou menos assim: vai mexer com os ministros do Supremo? Com o Tribunal de Contas? Vai mexer com a Globo? Ou seja, como é que você organiza o país para uma nova etapa do capitalismo? Quem é o estorvo? É isso. São escolhas.

Em 2018 o candidato do PT é Lula?
Tem que ser.


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