Maior poeta de sua geração, maranhense morre aos 86 anos, no Rio de Janeiro, vítima de pneumonia

São Paulo
Ferreira Gullar em 2007. EL PAÍS
“O que se foi se foi", escreve Ferreira Gullar, falecido neste domingo de pneumonia, ao 86 anos, no Rio de Janeiro, em seu Em alguma parte alguma (Editora Olympio, 2010). E obviamente o poema O que se foi, deste que foi o seu último livro de inéditos, não acaba por aí, muito menos o maranhense José Ribamar Ferreira: "O que se foi se foi. Se algo ainda perdura é só a amarga marca na paisagem escura. Se o que se foi regressa, traz um erro fatal: falta-lhe simplesmente ser real. Portanto, o que se foi, se volta, é feito morte. Então por que me faz o coração bater tão forte?”.

Um obituário de Ferreira Gullar poderia ser composto apenas de trechos de sua obra, como comprova esta passagem de seu célebre Poema Sujo (José Olympio, 1976): "Corpo que se para de funcionar provoca um grave acontecimento na família: sem ele não há José Ribamar Ferreira, não há Ferreira Gullar e muitas pequenas coisas acontecidas no planeta estarão esquecidas para sempre". Mas é preciso informar que o corpo do poeta, ensaísta, dramaturgo e crítico de arte será velado às 17h deste domingo na Biblioteca Nacional, e às 9h de segunda-feira na sede Academia Brasileira de Letras (ABL), onde Gullar assumiu uma cadeira no final de 2014, após passar anos dizendo que nunca o faria.

Ao tomar posse na ABL, em dezembro daquele ano, o poeta não se esquivou da polêmica. "Como minha vida tem se caracterizado não pelo previsível, mas pelo inesperado, ao decidir-me pela candidatura à que nunca aspirei, agi como sempre agi, ou seja, optar pelo imprevisível. Estou feliz da vida, uma vez que, aos 84 anos de idade, começo uma nova aventura pelo inesperado que a algum lugar desconhecido há de levar-me. Pode alguém se espantar ao me ouvir dizer que posso encontrar o novo nesta casa que é o reduto próprio da tradição. E pode ser que esteja certo. Não obstante, como na vida, em qualquer lugar, em qualquer momento, o inesperado pode acontecer".

"Inesperado" é uma boa palavra para definir um homem que foi membro do Partido Comunista e que passou os últimos anos de sua vida escrevendo artigos para criticar a agenda socialista. Gullar exilou-se na União Soviética, na Argentina e no Chile durante a década de 1970, enquanto o Brasil era governado por uma ditadura militar, e chegou a ser preso quando retornou a sua pátria, em 1977. Em trecho de poema do poema Cantada, o maranhense escreveu uma ode à Revolução Cubana: "Olha, você é tão bonita quanto o Rio de Janeiro em maio e quase tão bonita quanto a Revolução Cubana".

Gullar não se furtou a criticar os rumos de regimes de esquerda do mundo inteiro, vaticinando que "o socialismo fracassou". Em entrevista concedida à revista Veja em 2011, resumiu seu ponto sobre o assunto. "Eu, de direita? Era só o que faltava. A questão é muito clara. Quando ser de esquerda dava cadeia, ninguém era. Agora que dá prêmio, todo mundo é. Pensar isso a meu respeito não é honesto. Porque o que estou dizendo é que o socialismo acabou, estabeleceu ditaduras, não criou democracia em lugar algum e matou gente em quantidade. Isso tudo é verdade. Não estou inventando".

Nobel

Gullar chegou a ser cogitado para receber o Prêmio Nobel de Literatura. Seria o primeiro brasileiro a receber a honra, que não poderá mais ser entregue a ele. Em entrevista concedida ao EL PAÍS, em 2014, o modesto poeta comentou o assunto. "Eu não tenho ilusões. Acho muito difícil e não acho que mereça (...) O que eu acho uma injustiça é não terem premiado outros escritores brasileiros, como o Carlos Drummond de Andrade, o Jorge Amado, o João Guimarães Rosa. Deram prêmio para o Pablo Neruda e não dariam para o Drummond? Muito melhor que o Neruda."

Um dos fundadores do neoconcretismo, no fim da década de 1950, o maranhense criou o conceito de livro-poema, no qual "o passar das páginas faz o poema". "É a participação do leitor no fazer poema. Deixa de ser só ler com o olho. A mão atua", resumia o poeta. Vem desde aquela época uma rusga entre Gullar e o poeta concretista Augusto de Campos — rusga que ambos sustentaram nas folhas dos jornais até há alguns meses atrás.

O governador do Maranhão, Flavio Dino (PCdoB), decretou luto no Estado natal de Gullar, "que nunca exilou-se daqui, como mostrou no Poema Sujo", escreveu o político em seu perfil no Twitter.  O presidente Michel Temer também escreveu na rede social para dizer que "Ferreira Gullar deixa um vazio imenso na literatura nacional. Perdemos um poeta de primeira grandeza".

Morre o poeta celebrizado por um Poema Sujo, e que se expôs límpido ao mundo inteiro nas páginas de sua obra. Fica seu Aprendizado: "Do mesmo modo que te abriste à alegria, abre-te agora ao sofrimento que é fruto dela e seu avesso ardente. Do mesmo modo que da alegria foste ao fundo e te perdeste nela e te achaste nessa perda, deixa que a dor se exerça agora sem mentiras nem desculpas e em tua carne vaporize toda ilusão, que a vida só consome o que a alimenta".

El País Brasil
Axact

Ronaldo

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