"Quando ocupamos estava tudo um lixo. Transformamos o prédio para que ele fosse receptivo também para saúde e cultura, dando função social a arquitetura", diz coordenadora

 
por Sarah Fernandes, da RBA
 
 
 Bia Montesanti // Carmem (ao fundo) brinca com criança durante atividade cultural na ocupação Cambrige
 


São Paulo – O projeto arquitetônico tocado pelas 142 famílias que vivem na ocupação do Hotel Cambridge, na região central de São Paulo – que alia a ideia de moradia individual com a construção de espaços para atividades de cultura, lazer, saúde e geração de renda para a comunidade –, foi premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), como obra de arquitetura, na categoria apropriação urbana. Todo processo de revitalização, iniciado em 2012, foi gerido e financiado pelos próprios moradores.

"Quando ocupamos estava tudo um verdadeiro lixo. Transformamos o prédio para que ele fosse receptivo para outras áreas além de moradia, como saúde e cultura, dando função social à arquitetura", conta a coordenadora da ocupação, Carmen Silva, que receberá o reconhecimento na cerimônia de premiação, prevista para 2017, junto com o coordenador do Grupo de Refugiados e Imigrantes Sem Teto da ocupação, Pitchou Luambo, e os curadores da Residência Artística Cambridge Juliana Caffé, Yudi Rafael e Alex Flynn.

As pelo menos 4 mil pessoas que dividem os 15 andares do antigo hotel vivem hoje em um cenário muito diferente do encontrado na época da ocupação: no prédio funciona um ambulatório da Unidade Básica de Saúde da República, brechó, espaços de leitura, biblioteca aberta inclusive para os vizinhos da ocupação, horta comunitária, oficina de fotografa e cozinha para preparo e venda de bolos, administrada por idosos.

Na ocupação vivem também refugiados e migrantes que lecionam inglês e espanhol e usam o espaço para reuniões das comunidades. O local também é ponto de encontro de coletivos de teatro e de comunicação. "A gente preservou espaços coletivos para que famílias pudessem fazer festa de aniversário, casamento, batizado, mas também recebemos grupos de cultura, com apresentações teatrais, rodas de leituras e palestras", diz Carmen.

Recentemente a ocupação foi cenário para o filme Era o Hotel Cambridge, projeto da cineasta Eliane Caffé que une narrativa documental a ficcional, e também para o workshop de residência arquitetônica da Universidade Federal de Leuven, na Bélgica. "Não tivemos nenhuma ajuda do poder público. Tudo foi construído por nós, com apoio de parceiros, com a contribuição mensal das famílias que vivem aqui", conta Carmen. "Temos também regras claras e não abrimos espaço para drogas e bebidas. Aqui formamos pessoas, as resgatamos e devolvemos um cidadão de bem para sociedade."

"Para mim foi uma grande surpresa porque nem sabia que a Associação de Críticos de Arte estava olhando para a gente. É um reconhecimento pelo esforço de todos, porque a ocupação hoje é fruto do esforço de várias pessoas juntas, dos moradores e de movimentos de moradia que tem olhar urbanístico de transformar os espaços ociosos e sem função social em espaço de convivência, onde todos possam viver bem", diz a coordenadora.

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