Na década de 1960, Sérgio Porto, um dos maiores cronistas brasileiros, sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta, deu início ao que batizou de FEBEAPÁ: Festival de Besteiras que Assola o País.

Em suas crônicas, Stanislaw narrava acontecimentos tão absurdos que alguns podem até achar que foram inventados, como quando a seleção de futebol da então Alemanha Oriental veio ao Brasil disputar um amistoso com a seleção brasileira e o Itamaraty divulgou uma nota informando que a partida só seria realizada se não houvesse "cunho político", explicando que "cunho político" seria a execução dos hinos nacionais dos dois países.

Ou como o caso de um delegado de Mariana, em Minas Gerais, que "proibiu casais de sentarem juntos na única praça namorável da cidade e baixou portaria dizendo que moça só poderia ir ao cinema com atestado dos pais".

Nascido em 1923, Sérgio Porto nos deixou muito cedo, aos 45 anos, em 1968. Mas a expressão que ele criou permanece atual - e certamente permanecerá (infelizmente).

Porém, diante da crise política instalada no Brasil nos últimos anos, proponho uma nova sigla/expressão (com todo o respeito a Porto): BEGEAPÁ: Bagunça Generalizada que Assola o País.

Porque a verdade é que desde o fim de 2014 o Brasil virou uma verdadeira bagunça. Começou com Aécio Neves, candidato derrotado na última eleição presidencial, contestando o resultado e solicitando recontagem de votos. Depois, veio o ex-deputado Eduardo Cunha e suas pautas-bomba, que travaram o governo Dilma (que, a propósito, era uma bagunça por si só).

Em seguida, vieram o processo de impeachment e as artimanhas do vice-presidente Michel Temer, que contribuiu para a desestabilização do País ao vazar uma carta endereçada à presidente Dilma Rousseff e um áudio no qual treinava o discurso que faria quando assumisse a presidência da república.

Mais recentemente, vieram a queda de Dilma, a cassação de Eduardo Cunha e, esta semana, tivemos mais um episódio do que parece ser um crossover de Os Trapalhões com Os Caras de Pau: o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, afastou o senador Renan Calheiros, do mesmo partido de Cunha e Michel Temer, da presidência do Senado.

Renan não aceitou receber a notificação do afastamento e entrou com um recurso no STF para tentar derrubar a decisão do ministro. Neste momento, não sabemos ao certo se o presidente do Senado é Renan ou Jorge Viana (PT), que é o 1º vice-presidente do Senado.

Dias antes dessa confusão, Michel Temer deu uma declaração no mínimo curiosa: ele afirmou que "Como não temos instituições muito sólidas, qualquer fatozinho, me permitam a expressão, abala as instituições".

Se uma afirmação dessa natureza causa estranheza por ter sido feita pelo vice-presidente da república no exercício da presidência, que até outro dia afirmava que o Brasil tinha uma estabilidade política extraordinária, o que dizer do fato de essa frase ter sido proferida em meio à crise gerada pela denúncia do ex-ministro Marcelo Calero (Cultura) de que outro ex-ministro, Geddel Vieira Lima (Secretaria de Governo), o ministro Eliseu Padilha (Casa Civil) e o próprio Michel Temer o pressionaram para agir em favor de interesses pessoais de Geddel?

Os três volumes do FEBEAPÁ foram publicados, respectivamente, em 1966, 1967 e 1968. Mas, como diz o jornalista Sérgio Augusto na apresentação da mais recente edição que reuniu os três volumes, "Com a morte de Sérgio Porto, em 1968, o festival chegou ao fim. Infelizmente, só por escrito".


Rafael Rodrigues
Axact

Ronaldo

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