ESTÁ NA ORIGEM da palavra: “Fazer público”. E o que os manifestos historicamente revelam jamais é modesto: a intenção de mudar o mundo, a arte – e, frequentemente, um através do outro.

São textos maiores que a vida, que inspiram revoluções e demandam o impossível, como o Manifesto do Partido Comunista, de 1848, ou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, marco da Revolução Francesa de 1789. Partem de um antagonismo violento com a realidade para chamar à ação e criar outro mundo. São esquemas do sonho, mapas desenhados com traços que são fronteiras com o passado.

Uma sociedade incapaz de produzir manifestos é a que não tem espaço para imaginar-se diferente. Não por acaso vivemos neste início de século a ausência quase absoluta deles e de qualquer utopia – ficaram fora de moda não apenas por ceticismo, mas porque simplesmente nos parecia impossível que a História voltasse a acontecer. Preferíamos manter a crença irracional de que o desenrolar dos fatos nos levaria inevitavelmente para casa, como se fôssemos moscas num pote de vidro.

Estávamos errados.

A chapa esquenta


Nos anos 1980, houve também quem acreditasse que outra história, da arte, tivesse acabado. Segundo Arthur C. Danto, a fragmentação das práticas teria feito com que se tornasse impossível representar a arte contemporânea por uma narrativa “mestra” baseada em rupturas conceituais e na sucessão de movimentos. A arte contemporânea não tem nada contra a arte que a precede, nenhuma necessidade de libertação. Tudo está ali para ser usado, sampleado, reorganizado. Para Danto, esse momento pós-histórico seria marcado pelo pluralismo e, por assim dizer, tolerância em relação ao passado.

Uma quebra bastante radical, portanto, com a história da arte do século passado, até então contada através dos manifestos que batizaram as vanguardas modernistas das suas primeiras décadas e atravessaram boa parte dele até hoje – Pop Art, Fluxus, Antropofágico, Dogma 95, Contrassexual etc. Pois manifestos costumam ser antipáticos. Neles, a declaração de intenções estéticas acompanha a proclamação de que tal conjunto de valores é responsável pelo único tipo de arte digno de consideração.

Cada um dos movimentos costuma ver sua arte como uma descoberta – e, a partir de tal momento, o resto, o que não está contemplado no seu manifesto, deixa de ser arte. Ou torna-se irrelevante e fora do tempo. Quando essas oposições deixam de fazer sentido, quando deixam de ser necessárias, talvez congele-se o motor da história da arte. Mas hoje a chapa esquenta.
O Manifesto Inconformista de Dezembro de 2016

Nos últimos anos, e 2016 é o ápice da curva até que venha o próximo, certas forças subterrâneas chocaram-se com tanta violência que a dinâmica política transbordou para todos os espaços. O peso da história, algo que a arte vinha negando desde os anos 1970, voltou a se impor a todos nós.

Eu, que jamais imaginaria viver para escrever um manifesto, escrevi um deles. É apenas uma tentativa – e desconfio que seja apenas a primeira de muitas.





MANIFESTO DE OLHOS ABERTOS – ou Manifesto Inconformista de Dezembro de 2016


1_ A destruição é uma constante histórica. A crença ingênua de que passaríamos incólumes pela vida nos une. Precisamos abrir os olhos.

2_ A arte permite que o oculto se revele.

3_ Não se trata de iluminar, mas VER a sombra.

4_ A arte deve ser agente da destruição – e não apenas uma vítima circunstancial da História para consumo cultural ou lavagem de dinheiro.

5_ A arte deve atacar toda forma de poder constituído, inclusive o da própria arte: branco, capitalista e patriarcal.

6_ A arte deve ser próxima a experiência, ao tempo e ao corpo presente. Nada disso está online.

7_ A arte não é um domínio especializado. Isso é artesanato ou cátedra.

8_ A sua expressão pessoal é um fetiche. A sua autoria é uma mentira.

9_ Suas boas intenções não servem de nada. Sua consciência tranquila é alienação.

10_ Liberdade individual é um conceito caduco. Precisamos inventar outra. Não existe liberdade fora do coletivo.

11_ Viver é uma invenção estética. Viver é um processo de demolição. “Não aceitar o que é de hábito como coisa natural.” Nada é natural.

12_ Não há resistência fora da criação. Não há criação fora da resistência.

São Paulo, 13.12.2016

The Intercept Brasil
Axact

Ronaldo

Blogueiro e livreiro, reproduzo as notícias que considero interessante para os amigos e disponíbilizo meu acervo de livros para possíveis cliente. Boa leitura e boas compras.

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