Quem Michel Temer pensa que é?

Sempre foi uma figura do segundo escalão da política brasileira.

"Ah, mas ele foi presidente da Câmara!". Bom, Severino Cavalcanti também o foi.

"Mas ele também foi presidente do PMDB". Nesse caso, está em companhia de outros titãs, como Jader Barbalho, Maguito Vilela, Valdir Raupp e Romero Jucá.

Michel foi, segundo ele mesmo, um vice decorativo.

Michel é citado nominalmente na delação de Cláudio Melo Filho, diretor da Odebrecht, por ter supostamente pedido RS$ 10 milhões para pagar umas continhas de campanha. Coisa besta.

Michel, que nunca venceu (e nem vencerá) uma eleição majoritária, tornou-se presidente da República.

Michel montou uma equipe de governo digna de cinema:

Maurício Quintella, Ministro dos Transportes, foi condenado em primeira instância de desvio de verbas, 130 milhões de reais da merenda de Alagoas.

Dinheiro de merenda. De crianças. De Alagoas.

José Serra, Ministro das Relações Exteriores, é acusado em delações de ter recebido 23 milhões na Suíça, como recurso "não contabilizado" para sua campanha.

A lista é longa.

E isso sem falar nos que já dançaram, como Jucá, Henrique Eduardo Alves e Geddel.

Michel Temer tem uma taxa de rejeição de 45%. Ou seja, quase metade dos eleitores não votariam nele sob qualquer circunstância.

O seu governo é apoiado por 10%, enquanto 51% o acham "ruim ou péssimo".

E 63% dos eleitores querem sua renúncia e a realização de novas eleições.

Sem qualquer apoio popular, esse cidadão está apostando todas as suas fichas em uma reforma fiscal extremamente controversa, visando congelar os gastos do governo durante 20 anos, em termos reais.

Uma medida sem paralelo na história dos paralelismos, escrita a ferro e fogo nas páginas da nossa tão violada Carta.

Isso é já é demasiada ousadia para um governo tão frágil.

Insatisfeito, Michel mira agora uma reforma profunda da Previdência.

Uma reforma que fixa a idade mínima de aposentadoria para homens e mulheres, trabalhadores urbanos e rurais, em 65 anos.

Uma reforma que exigirá 49 anos de trabalho para a obtenção da aposentadoria integral.

Uma reforma que prevê a possibilidade de as pensões serem menores que o salário mínimo.

Uma reforma que não permitirá o acúmulo de pensão por morte com outra aposentadoria ou pensão.

Medidas duras.

Não vou entrar no mérito técnico do ajuste fiscal ou da reforma da previdência. A questão fundamental aqui é política:

Michel Temer - o indesejado - quer aprovar essas medidas com o apoio de um Congresso atolado até o pescoço num mar de lama (e cuja maré continua a subir).

Um Congresso abarrotados de figuras que prostituíram seus mandatos, satisfazendo os fetiches de lobistas em troca de dinheiro sujo, cujos gabinetes funcionavam comogarçonnière. Figuras que, tal qual traficantes pé-de-chinelo, eram mais conhecidos por suas alcunhas:

Caranguejo, Caju, Justiça, Botafogo, Índio, Babel, Bitelo, Primo, Angorá, Polo, Ferrari, Las Vegas, Campari, Cerrado, Pequi, Helicóptero, Pino, Gripado, Todo Feio, Corredor, Gremista, Misericórdia, Decrépito, Boca Mole, Kimono, Missa, Feia, Velhinho, Tuca.

O Brasil está cheio de problemas seríssimos, que demandam uma série de medidas duras. Mas esse governo e esse parlamento, nesse contexto, não têm quaisquer condições de impor tal sorte de sofrimentos goela à baixo da população.

É muita maldade concentrada num pequeno espaço de tempo, e sem qualquer perspectiva de melhor relevante no curto prazo.

Eles estão cavando a própria cova com as próprias unhas.

Eles estão tornando crível a narrativa do golpe; dos udenistas ruins de voto que só ganham no tapetão; do governo da direita contra os direitos dos trabalhadores.

Eles estão engrossando o coro do Fora Temer.

Eles estão criando as condições mais que perfeitas para mais uma derrota do PSDB/PMDB/DEM/PPS.

Eles estão pavimentando a BR- superfaturada - que levará um candidato da oposição à presidência em 2019.

Pode ser Lula, pode ser Ciro, pode ser Marina. Pode ser coisa pior. Muito pior.

E nesse caso, respeitarão os udenistas a vontade popular?

A crise política brasileira parece cada vez mais longe - e esse governo cada vez mais perto - do fim.


Alexandre Andrada
Axact

Ronaldo

Blogueiro e livreiro, reproduzo as notícias que considero interessante para os amigos e disponíbilizo meu acervo de livros para possíveis clientes. Boa leitura e boas compras.

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