Não estamos indo a atos públicos com violência ou agressão. Estamos sendo agredidos. O diálogo que propomos não é ouvido.



Equipe de Comunicação Internacional dos Estudantes do OCUPA IGC. 





Em 2015, professores da rede pública estadual do Paraná foram brutalmente reprimidos pela polícia militar em um ato contra a aprovação de medidas legislativas que atacavam direitos da categoria. Também durante 2015 e neste ano, estudantes secundaristas foram atacados de forma covarde pelas forças policiais em atos e ocupações contra as medidas de flexibilização do ensino médio e a PEC 241/55. Recentemente, foi a vez de estudantes da UFMG serem agredidos de forma massiva por realizarem um ato em frente a portaria da universidade - ato esse democrático e tão “estimulado” pelos governos estaduais e a união nos últimos anos. Diante desses fatos, é interessante pensar no contexto em que se insere as ações cometidas pelas forças policiais, os atos estudantis e a repercussão desses - ditos por eles - “confrontos”.

A Polícia Militar, enquanto instituição pública responsável pela segurança e manutenção da ordem social em sociedade, possui poderes encabidos a ela pelo Estado, sendo então legitimados por esse último. Assim, como nas forças armadas (Aeronáutica, Exército e Marinha), esses poderes tem como objetivo legal a manutenção da estabilidade, da segurança e da preservação das instituições que regulam nossa sociedade e território. Isso em parâmetros legais. Se considerarmos o cenário de atuação dessa mesma Polícia Militar nos atos, ocupações e protestos dos últimos dois anos, poderemos perceber que essa premissa legal não é cumprida. Em quase todos os atos públicos realizados, o diálogo com os policiais encabidos de averiguar o protesto é feito, como forma de estabelecer à comunidade civil o caráter pacífico e democrático dos atos. Entretanto, como foi possível ver durante a última sexta-feira, em diversos casos esse diálogo é negado por policiais que, utilizando dos poderes a eles legitimados pelo Estado, agridem e dispersam cidadãs(ãos) que, em todos os casos, exercem direitos garantidos constitucionalmente. É esse ponto um dos fundamentais para entender uma das mais importantes contradições exercidas pelo Estado, enquanto instituição de poder, e, consequentemente, pelo atual governo federal e estaduais.

Os ataques cometidos pela polícia sexta-feira evidenciam claramente os objetivos do governo, tanto federal quanto estadual, com as ocupações e atos consequentes. Através da força atribuída a Polícia Militar, a tentativa de silenciamento e dispersão é exacerbada, e também a sua consequente violência. O Estado se mostra aqui como um agente cujo objetivo é exercer seu poder de coerção e controle do território, que, na alegação dele próprio, “fora invadido”. Soma-se a essa atitude demagógica os discursos do “direito de ir e vir”, que estariam sendo retirados da maioria da população, quando, em verdade, esse mesmo direito tão requisitado garante que possamos lutar por nossa causa, que é, literalmente nossa, enquanto cidadãs(ãos), isto é, engloba tanto estudantes e professores como a população como um todo. Partindo desse ponto, é importante pensar que, numa atitude de “reintegração de posse” e “dispersão de movimentos desnecessários” vinda do Estado e de seu aparato de força (a Polícia Militar), não existe confronto. Não estamos articulados lutando contra policiais. Não estamos contra a sociedade. Estamos em favor dela, na luta pelo fim de medidas que cortem e regulam direitos a maneira que o governo - e a elite que é aliada a ele - melhor considerar. Não estamos indo a atos públicos com violência ou agressão. Estamos sendo agredidos. O diálogo que propomos não é ouvido. Diálogo esse, a propósito, que o governo, no âmbito de sua propaganda estática e não direcionada, insiste em tentar realizar. Pelo visto esse diálogo é baseado no uso da força, uso esse que é legítimo de poder, mas ilegítimo de ética, respeito e representatividade a população…

Sugestões de leitura e filme


Para esse diário, preparamos duas recomendações. Uma de leitura e outra para exibição.

A primeira trata-se do livro A Política como Vocação, de Max Weber. Lançado em 1919, esse livro é baseado numa conferência realizada pelo autor na Universidade de Munique, Alemanha. Nessa obra, Weber trata de uma definição de Estado que se tornou clássica no pensamento político ocidental, onde ele atribui o conceito de monopólio da força ao Estado, no exercício de controle do território e da coerção que realiza dentro desse último. Os conceitos de uso de força e coerção do Estado são suporte para esse diário. O link para visualização ou download encontra-se a seguir
http://www.bresserpereira.org.br/Terceiros/Cursos/09.08.Weber,A_politica.pdf

A segunda recomendação é de um filme, “Daens, Um Grito de Justiça”. Ambientado na Bélgica do século XIX, o filme aborda a luta da classe operária da cidade Aalst diante das condições trabalhistas precárias e insalubres, que passam a contar com a ajuda do padre Daens, enfrentando assim a elite industrial, política e religiosa conservadora belga. O filme é uma interessante e histórica analogia para os conflitos entre o Estado e a classe popular no âmbito social. O link para visualização do filme encontra-se abaixo.
https://vimeo.com/46428638 (Parte I)
https://vimeo.com/46316968 (Parte II)




Créditos da foto: reprodução
 
Axact

Ronaldo

Blogueiro e livreiro, reproduzo as notícias que considero interessante para os amigos e disponíbilizo meu acervo de livros para possíveis clientes. Boa leitura e boas compras.

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