Menos de três meses após o impeachment, governantes parecem não ter entendido que não há tolerância com corrupção e privilégios, avaliam especialistas. "Classe política está cada vez mais divorciada da população."



Um ministro do presidente Michel Temer é denunciado por fazer pressão sobre um colega para liberar a construção de um prédio de luxo. Deputados usam seu poder para legislar em causa própria e tentam aprovar na surdina uma emenda que concede anistia para a prática de caixa 2. Uma manobra no Senado abre brecha para que parentes repatriem valores ilegalmente remetidos ao exterior.

Para especialistas, esses acontecimentos, ocorridos no intervalo de apenas sete dias, escancaram uma desconexão crescente de boa parte da classe política e do governo Temer com as expectativas da população, menos de três meses depois do afastamento definitivo da ex-presidente Dilma Rousseff.

"A classe política não entendeu que há um nível maior de controle sobre temas envolvendo corrupção ou a conduta política. No momento, temos um governo fraco", afirma o analista político Rafael Cortez, da consultoria Tendências.

A primeira bomba da semana envolveu Geddel Vieira Lima (PMDB), um dos homens-fortes de Temer e que, até esta sexta-feira (25/11), ocupou o cargo de secretário de Governo. O peemedebista foi acusado de pressionar seu colega Marcelo Calero, que chefiava a pasta da Cultura, para que este usasse sua influência na liberação da construção de um edifício de luxo em uma área histórica de Salvador – um caso evidente de uso da estrutura de governo para fins pessoais.

Mesmo com a revelação do escândalo, Geddel se manteve firme no cargo por quase uma semana graças ao apoio irrestrito de Temer. Só decidiu pedir demissão quando o escândalo envolveu o próprio Temer, depois que Calero prestou depoimento à Polícia Federal e acusou o presidente de tomar parte na pressão.

Propinas e favores são naturais


Quando perguntado sobre o caso, Geddel reagiu como se não tivesse feito nada errado. "Qual a imoralidade que há em tratar desse tema com um colega meu?", disse. Vários políticos saíram em sua defesa. O deputado Paulinho da Força (SD), por exemplo, classificou o escândalo de exagero. "Ele pediu um favor e virou um escândalo. No Brasil, todo mundo pede favor", disse.

"É uma repetição bufa do que aconteceu na Itália durante a Operação Mãos Limpas, nos anos 90. Prefeitos presos não conseguiam entender o que haviam feito de errado. Para eles, propinas e favores eram naturais", afirma o filosófo e professor de ética Roberto Romano.

"Boa parte da classe política legisla em causa própria e está cada vez mais divorciada da população. Não há mais a exibição de uma república democrática, mas de uma tirania política. Tiranos são os que usam os bens dos governados como se fossem seus. Os governantes encaminham medidas amargas para a população ao mesmo tempo em que um ministro pede a suspensão de uma medida em benefício próprio", completou.

Paralelamente ao caso Geddel, deputados tentaram desvirtuar o pacote anticorrupção, um projeto do Ministério Público que contou com amplo apoio popular, ao tentar incluir uma emenda para conceder anistia a políticos que praticaram caixa 2 em suas campanhas. A manobra foi vista como uma tentativa de sabotar a Operação Lava Jato. "Eles realmente acreditam que podem aprovar algo assim, mesmo com uma sociedade sedenta por punição", afirmou Cortez.

Os deputados só recuaram diante da pressão da imprensa, do público e de alguns deputados que denunciaram a manobra. No mesmo dia, o senador Romero Jucá, um aliado de Temer que foi o primeiro ministro do novo governo a cair, ainda em maio, mudou o texto de um projeto e abriu uma brecha para que um mecanismo de repatriação de valores pudesse incluir parentes de políticos.

Espaço para alguém de fora


Para Cortez, o desgate provocado por esses episódios pode ter consequências graves para a aprovação de reformas econômicas e para a corrida presidencial de 2018.

"Os novos escândalos podem paralisar o governo e deixar um horizonte menor para a aprovação de medidas como a reforma da Previdência. Não se espera mais uma transição tão suave para 2018. Não houve uma lua de mel entre a população e o governo Temer. A desconfiança crescente pode provocar um risco de fragmentação, como nas eleições de 1989, talvez abrindo caminho para alguém de fora do sistema e com um discurso antipolítico."

Romano concorda que o comportamento do governo Temer pode criar um sentimento antipolítico ainda mais forte entre a população. "Parte considerável da população não está perdendo confiança apenas nas instituições, mas também na democracia. Essa é uma novela que vem se reeditando desde a época Vargas, passando por Jânio Quadros e o golpe de 1964. Esses casos aumentam a angústia por um salvador", afirmou.

Embora Romano afirme que o comportamento histórico de privilégios da classe política brasileira ajuda a explicar alguns dos episódios desta semana, ele diz que as análises também têm que considerar as características dos envolvidos. "Podemos falar de formação do Brasil e dos privilégios históricos dos políticos, mas é também preciso olhar para quem está liderando. Dilma era uma presidente inapetente, mas Temer também é fraco. Falou-se muito da sua experiência de bastidores, mas ele não tem liderança", afirmou.

Ao menos por enquanto, as consequências práticas do episódio Geddel devem ser limitadas. Deputados do PSOL disseram que pretendem entregar um pedido de impeachment com a justificativa de que o episódio configura crime de responsabilidade do presidente. Mas a aceitação do pedido depende do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), um aliado do presidente. Temer também conta com uma base aliada mais sólida do que Dilma dispunha quando seu pedido de impeachment foi entregue.
Axact

Ronaldo

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