Ao receber Medalha Pedro Ernesto, atriz fala sobre a necessidade de continuar combatendo o golpe instaurado no país

Mariana Pitasse
Brasil de Fato

Bete Mendes recebe a Medalha Pedro Ernesto oferecida pelo vereador Reimont / Divulgação


Conhecida por seus mais de 40 papéis na televisão, Bete Mendes também tem um currículo extenso quando se trata de política. Com apenas 15 anos, ela deu início a militância secundarista e pouco tempo depois ingressou na organização Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares) para enfrentar a Ditadura Militar instaurada no país. Foi proibida de frequentar a universidade, presa e torturada. Antes de lutar pelas eleições diretas, apoiou as históricas greves do ABC paulista, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) e militou pela Lei da Anistia. Em 1985, foi eleita deputada federal pelo PT e autora do projeto de lei que criava uma comissão encarregada da elaboração do projeto da Constituição Cidadã. Anos mais tarde, ainda foi Secretária Estadual de Cultura de São Paulo e presidiu a Fundação de Artes do Estado do Rio de Janeiro (Funarj).

Na última quarta-feira (16), aos 67 anos, Bete recebeu a Medalha Pedro Ernesto na Câmara Municipal dos Vereadores do Rio de Janeiro, oferecida pelo mandato do vereador Reimont (PT). “Escolhemos a dedo pessoas que são comprometidas com a democracia, com o Brasil e com as nossas lutas. A Bete é essa mulher. Ela soube dizer ao longo de sua vida a importância da sua militância e da sua arte. Uma homenagem a ela, é uma homenagem a todas as mulheres, que lutam pelos seus direitos e pela garantia do espaço da mulher na sociedade”, afirmou o vereador.

Antes de receber a medalha, Bete Mendes conversou com o Brasil de Fatosobre as mudanças políticas que aconteceram nos últimos tempos e a necessidade de combater o golpe de estado instaurado no país.

Brasil de Fato - O que significa para você receber esse prêmio hoje?

Bete Mendes - Não pensava, não pensei e não penso que seja possível eu ter o merecimento de um prêmio desses. Inimaginável para mim. É uma loucura. Quando me informaram que eu seria homenageada eu falei: “Não, para que isso?”. O vereador Reimont está me dando um prêmio inimaginável.

Brasil de Fato - Você que viveu a época da ditadura de forma tão ativa, foi presa e torturada, como foi passar por um segundo golpe de estado?

Eu estou muito preocupada. Estamos num estado quase de choque. Nós lutamos tanto, tanto, tanto. Fizemos uma constituição cidadã, que foi rasgada, foi jogada no lixo. A gente está percebendo que vamos ter que retomar toda a luta e nós não merecemos, o povo brasileiro não merece e principalmente a juventude que está começando a vida não merece. Junto com tudo o que eles estão fazendo contra os direitos trabalhistas, os direitos dos cidadãos, o que estão querendo fazer com o ensino brasileiro é assustador. Querem fazer robôs e não pessoas que pensam. Ao mesmo tempo, estou muito orgulhosa dos meninos e das meninas que estão na reação, estão fazendo coisas maravilhosas no país inteiro. Ana Júlia é a minha ídola porque ela se colocou divina e muito oportunamente a nossa posição. Deu um tapa na cara de todos os boçais, hipócritas e vendidos. É por aí que a gente tem que andar.

Brasil de Fato - Você acompanhou a invasão policial à Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF)? O que você achou desse episódio?

Acompanhei. Eu acho que é uma intenção clara de reprimir todos os movimentos organizados do país, contra o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), claramente. Invadir uma escola de formação profissional é jogar na cara do povo que o que interessa é atender ao poder global, dos grandes empresários, donos de bancos e das multinacionais.

Brasil de Fato - Acredita que o Brasil é um país sem memória?

Eu acho que em muitos setores houve esquecimento, mas acho que a jovem população, que está me surpreendendo gratíssimamente, está tendo consciência e está fazendo comparações com o golpe que a gente teve há 52 anos atrás. Eu até comentava com uns amigos: é o mesmo processo, só que mais rebuscado e com mais elementos. A mídia é um desses elementos. Nós temos uma mídia poderosíssima que está lavando a consciência do povo. É um absurdo o que estão fazendo. Haja vista a entrevista (na TV Brasil) que fizeram com esse senhor que está ocupando a presidência de maneira ilegal. O que foi aquilo? Programa da tarde? “Vamos ensinar a fazer um bolo, sua mulher se veste bem”. É ridículo, é absurdo e nós estamos passando uma vergonha para o mundo. E o que fizeram com a TV Brasil também. Tudo inconstitucional, ilegítimo, tudo proibido. O mais grave: estão sendo respaldados pela “lei” porque diversos juízes e ministros estão apoiando essas ações. Eu fico muito feliz com aquele juiz que negou a tomada da escola que estava ocupada pelos alunos. A gente tem que pegar esses exemplos e espalhar. Graças às redes sociais e ao tipo de jornalismo que faz o Brasil de Fato, a gente pode disseminar alguma coisa de útil e diferente da grande mídia.

Brasil de Fato - Você tem medo do Brasil retroceder mais ainda ou tem esperança de que a população não vai deixar que isso aconteça?

Eu vou ser sincera: eu tenho esperança e tenho medo. Estamos em um processo muito rápido de transformação da democracia em ditadura com todos os poderes envolvidos e comprometidos. Eu tenho esperança na reação da nossa sociedade, da nossa nação e dos que são compromissados com a gente, políticos, juízes, intelectuais, todos os setores. Mas tenho muito medo e quero que a esperança vença esse medo.

Edição: Vivian Virissimo




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