Considerando as dificuldades enfrentadas pelos governos de esquerda na América Latina, o sociólogo trouxe um panorama dessas experiências.


Tatiana Carlotti





Os estudantes lotaram o auditório do departamento de Ciências Sociais (USP), na última semana (06.10.2016), para assistir à palestra de Michael Löwy, sociólogo marxista e militante político. Em debate: os caminhos e descaminhos da esquerda na América Latina e, claro, o golpe no Brasil.

Considerando as dificuldades enfrentadas pelos governos de esquerda na América Latina, o sociólogo trouxe um panorama dessas experiências, dividindo-as em dois modelos principais: o social-liberalismo e um outro modelo mais radical.

Em sua avaliação, o social-liberalismo foi adotado em países como o Brasil, Argentina, Chile, Uruguai. Nele, “os governos têm uma relação tradicional com a esquerda” e “uma preocupação social de melhorar a situação dos trabalhadores e das camadas mais pobres da sociedade”.

Na prática, esses governos fizeram “todo o possível” para melhorar a situação das camadas mais pobres e trabalhadoras, mas eles seguiram uma regra: a de “não mexer nos privilégios dos ricos”, nem “nas estruturas que impõem a dominação das oligarquias”.

Já os governos de esquerda que optaram por um modelo mais radical – por exemplo a Venezuela, o Equador e a Bolívia - partiram para o “enfrentamento das oligarquias locais e do imperialismo norte-americano”. Esses governos também se apresentaram com o objetivo de realizar o “socialismo do século XXI”.

Segundo Löwy, apesar de não conseguirem realizar o socialismo, esses governos foram capazes de promover reformas dentro do capitalismo e cumpriram um papel fundamental na defesa do socialismo enquanto “o modelo para a verdadeira solução de problemas”, contribuindo para “a conscientização das pessoas”.

A questão é que ambos os modelos estão em crise. Para o sociólogo, isso se deve “ao enfraquecimento da base econômica nestes países”, consequência direta da crise internacional e da queda no preço da commodities e do petróleo. E, também, “pelos erros políticos” cometidos nos últimos anos.

O caso brasileiro


Ao comentar especificamente a experiência brasileira, Löwy destacou as várias concessões realizadas pelo governo Dilma Rousseff às oligarquias do país durante o seu segundo mandato. Ele também esclareceu os motivos do golpe:

“Essa elite parasitária que domina o país não quer mais concessões, mas governar diretamente através de seus representantes. Ela não mais se satisfaz com o social-liberalismo. Quer o neoliberalismo mais violento e mais brutal”.

Apontando que o afastamento da presidenta, democraticamente eleita, não passa de “um golpe de Estado”, Löwy aplicou à realidade brasileira o famoso acréscimo de Marx à sentença hegeliana de que a história sempre se repete, “na primeira vez como tragédia, na segunda como farsa”:

“O Brasil passou pela tragédia: o golpe de 1964, golpe militar, 20 anos de ditadura, centenas de mortos, milhares de torturados... Agora, começa o golpe versão farsa. Uma farsa ridícula”, avaliou.

Ele também identificou como principal “braço político” do golpe no país, o “partido P4 B”, composto pelos representantes no parlamento do banco, da bíblia, da bala e do boi”. Löwy aproveitou para acrescentar mais uma letra à legenda golpista: o “C” de corrupção.

Frente Única Antifascista


Apontando que agora é momento de lutar pela democracia no país, ele avaliou as divergências e a pluralidade de visões da esquerda como algo saudável e democrático, mas salientou a necessidade de uma “unidade de ação” neste momento.

Citando vários exemplos de atuação da esquerda ao longo da História, Löwy citou um caso emblemático de ação conjunta das forças progressistas: a criação da Frente Única Antifascista, durante a década de 1930, com o propósito de combater a perseguição contra militantes da esquerda promovida pelos integralistas.

Com apoio da pequena burguesia, os fascistas bradavam sua pretensão de “acabar com a esquerda”, disseminando o ódio. Em reação a isso, a Frente Única Antifascista conseguia a façanha de reunir em uma mesma ação um amplo leque progressista composto por trotskistas, anarquistas, sindicalistas, socialistas, comunistas e simpatizantes da esquerda em geral.

O confronto com os integralistas aconteceu em 1934, quando eles convocaram uma grande manifestação na Praça da Sé, visando dar uma “lição nos bolcheviques”. Felizmente, quem recebeu a lição foram os próprios integralistas, devidamente recepcionados pelas várias forças de esquerda presentes no local da manifestação.

O confronto entrou para a história como “A Revoada das Galinhas Verdes”, em menção às camisas verdes usadas pelos fascistas que, vencidos, saíram em debandada da Praça da Sé. O episódio está registrado no mais recente livro de Löwy, lançado neste mês, sob o título: Afinidades revolucionárias: nossas estrelas vermelhas e negras; por uma solidariedade entre marxistas e libertários, pela Editora Unesp.

Unidade de Ação


A Revoada das Galinhas Verdes, analisou Löwy, ilustra a força e a importância da unidade de mobilização da esquerda. “Eles [grupos de esquerda] não se dissolveram, cada um manteve sua identidade, mas juntaram forças para combater o fascismo”.

“A unidade da ação contra os golpistas, contra esse regime ilegal, contra o sr. Temer, está muito atual”, destacou ao citar a força da coalização de esquerda que levou cem mil pessoas às ruas de São Paulo contra o golpe. “É preciso manter esse espirito unitário”.

“Apesar das diferenças histórias, a esquerda precisa compreender que a unidade de ação é necessária na luta contra essa tentativa de passar de uma democracia de baixa intensidade para uma democracia de zero intensidade”, reforçou.



Protagonismo dos Movimentos Sociais


Analisando o contexto de forte descrédito da política no Brasil, Löwy apontou como a política vem sendo considerada “suja” e “podre” pelo senso comum no Brasil. Uma das consequências imediatas disso é a vitória da candidatura Dória (PSDB) em São Paulo que “se apresentou como um não político, um administrador. Uma mentira deslavada”.

Esse descrédito também se reflete na luta contra o golpe. Segundo Löwy, os movimentos sociais são hoje mais fortes do que os partidos políticos em termos de capacidade de mobilização social:

“O protagonismo contra o golpe é dos movimentos sociais. São eles – e não os partidos políticos – que têm melhores condições de mobilizar a sociedade na luta contra o golpe”.

Segundo Löwy, de imediato, é preciso “defender a democracia que está sendo destruída no Brasil. Defender o povo brasileiro de uma corja de parlamentares eleitos com dinheiro da corrupção”.

“Há uma batalha democrática por eleições diretas já no Brasil”, destacou.

Ditadura do mercado financeiro


Já sob a premissa de que “lutar pela democracia passa pela consciência de que o sistema capitalista é antidemocrático por excelência”, ele denunciou a ditadura que vem sendo imposta nos Estados democráticos pelo sistema financeiro mundial:

“No funcionamento normal do Estado democrático e parlamentar, as decisões fundamentais já não são mais tomadas pelos parlamentos e pelos governos, mas pelos mercados financeiros”, que não foram eleitos.

E mais: “os governos são apenas executores. Estamos em uma ditadura do capital financeiro. Para realizar uma verdadeira democracia temos que acabar com esse sistema que é antidemocrático”.

Questionado sobre o que seria uma autêntica revolução socialista, Löwy foi categórico:

“Uma revolução democrática, apoiada pela grande maioria da população. Não pode ser um golpe de esquerda contra um golpe de direita, mas a expressão de uma grande maioria. Temos que respeitar os direitos humanos, a liberdade de imprensa e de organização”.

“Essa foi a lição que aprendemos na história, com as revoluções autoritárias, ditatoriais, democráticas ou totalitárias. Uma revolução para ser autêntica precisa democrática e respeitar a liberdade de todos”, complementou.





Créditos da foto: reprodução
Carta Maior
Axact

Ronaldo

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