Em cenário polarizado após as eleições de 2014, detratores da presidenta Dilma se organizaram contra seu governo recorrendo a técnicas de mobilização de protestos e opinião pública com base no manual de ação não violenta de Gene Sharp


Entre 2014 e 2016 o Brasil foi surpreendido pelo surgimento de grandes manifestações contra o governo de Dilma Rousseff. As mobilizações de direita mexeram com o cenário político brasileiro, facilitando a mudança de governo e o impeachment de uma presidenta eleita nas urnas. Se os protestos de 2013 foram considerados uma surpresa, as mobilizações de direita que começaram no final de 2014 não foram menos.

Esta publicação, na qual apresento algumas conclusões obtidas por meio das minhas pesquisas e análises, tem como objetivo contribuir com o estudo das causas, antecedentes e elementos facilitadores das mobilizações da direita brasileira. Uma vez que as manifestações multitudinárias contra Dilma são um fenômeno relativamente recente, esta análise pode ser interessante para analistas e observadores da realidade política brasileira.

Existe uma série de elementos importantes para o estudo da origem das manifestações de direita. Abaixo destaco alguns:

1.Protestos de junho e julho de 2013 no Brasil


Os protestos de junho e julho de 2013 foram fomentados pelo aumento do preço do transporte público, entretanto, observa-se que as causas reais eram mais profundas, sendo o aumento do preço apenas um catalisador.

Os movimentos sociais de esquerda não conseguiram encabeçar os protestos e a direita, não associada a um partido político específico, cresceu com mais força nas redes sociais (Amadeu da Silveira, 2015).

Ainda, as dificuldades do movimento de 2013 em se articular, se definir e continuar ativo fizeram com que as manifestações perdessem força, o que deu indiretamente à direita a oportunidade de se apropriar dele.

Os atos de 2013 ressignificaram as lutas sociais, enfraqueceram o governo de Dilma Rousseff, utilizaram o ativismo online para chamar mais pessoas para a rua e as novas tecnologias digitais da comunicação facilitaram a sua organização.

2.Resultado das eleições de outubro de 2014


A República Federativa do Brasil apresenta um modelo presidencialista no qual o vencedor das eleições ganha tudo e assume o poder enquanto o perdedor não obtém nada. Num sistema presidencialista, o presidente só pode perder o seu mandato por um impeachment (diferente de uma moção de censura) ou por falecimento. Esta dinâmica de tudo ou nada gera tradicionalmente altos níveis de polarização política, especialmente nos sistemas presidencialistas da América Latina (Linz, 1990).

Foi durante o calor da campanha eleitoral para as eleições de 2014 que surgiram as organizações que vieram a ser as protagonistas durante as mobilizações de direita de 2015 e 2016.

O resultado apertado nas eleições presidenciais contribuiu para a polarização da sociedade brasileira entre os eleitores que apoiaram a alternativa ao PT e aqueles que decidiram continuar com o governo de Dilma.

Portanto, os detratores da petista se organizaram para se opor firmemente ao novo executivo depois das eleições, recorrendo a técnicas de mobilização de protestos e opinião pública baseadas em métodos que aparecem no manual de ação não violenta de Gene Sharp e explorando técnicas para iniciar um processo de impeachment com uma base jurídica fraca, mas com possibilidades de progredir por ter um legislativo dominado pelas forças da oposição, assim como acabou acontecendo.

3.Os recursos organizativos e comunicativos


Por outra parte, os recursos organizativos e comunicativos existentes foram outro elemento facilitador das mobilizações multitudinárias de direita. A aparição de novas tecnologias digitais da comunicação e informação ofereceram ferramentas fundamentais para a organização das manifestações pró-impeachment.

A utilização das redes sociais – principalmente o Facebook – é um elemento fundamental que foi aplicado intensamente pelos movimentos organizadores das mobilizações contra o governo de Dilma Rousseff.

Alguns perfis de movimentos organizadores dos atos chegam a ter mais de 1,5 milhão de seguidores no Facebook e um grande alcance. As maiores páginas têm um alcance semanal próximo a 10 milhões de pessoas por semana, com uma média de 10 publicações por dia.

As tecnologias digitais da comunicação disponíveis são utilizadas diariamente pelas organizações que articulam o movimento de direita. Os aplicativos de intercâmbio instantâneo de mensagens, como WhatsApp ou Telegram servem para se comunicar, por meio de grupos de conversa nos quais ativistas de todo o Brasil participam.

As reuniões online também são comuns nestes movimentos, facilitadas por programas como o Google Hangout ou o Skype, que permitem que qualquer pessoa com um dispositivo conectado à rede consiga manter uma conversa e realizar reuniões.

Para concluir, é importante destacar que alguns dos elementos que facilitaram as mobilizações expressivas da direita estão mudando e/ou desaparecendo com o novo contexto brasileiro.

As diversas organizações que atuaram na articulação do movimento contra Dilma podem encontrar algumas dificuldades para continuar convergindo e atuando de forma coletiva no cenário pós-Dilma. Isso se dá devido à importância do discurso antidilmismo na unificação dos ativistas e nas diferentes linhas de ação que estão seguindo as principais organizações do movimento depois da finalização do impeachment.

Agora, após a conclusão do processo de impeachment, observa-se um cenário de incertezas no que tange às mobilizações de direita. Além disso, nota-se o fomento da bandeira “Fora, Temer” e a articulação de novas manifestações que podem gerar uma reinvenção da esquerda, que busca se adaptar à situação política atual e disputar a hegemonia no espaço público, tanto virtual como físico.

As manifestações de direita no Brasil conseguiram um resultado que muitos analistas dificilmente poderiam ter previsto e agora se inicia uma nova etapa depois de 14 anos de governos do PT.

Bibliografia citada:


Amadeu da Sivleira, S. Direita nas redes sociais online. In: Direita, volver!Fundação PerseuAbramo, São Paulo, 2015

Linz J.J.: “Democracia presidencial o parlamentaria, ¿qué diferencia implica?”, en J.J. Linz y A. Valenzuela, eds., Hacia una democracia moderna, la opción parlamentaria, Chile, Ediciones Universidad Católica de Chile, 1990.

Crédito da foto: Andressa Anholete/AFP



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