Derrubaram um governo eleito e tentarão impor — inclusive com violência — seu programa de destruição do país e salvação dos seus interesses. Mas o início foi rasteiro Não será o passeio que imaginaram

Por Mauro Lopes

A mídia conservadora vendeu por meses a ideia de que finalmente “os profissionais” estavam no jogo, depois que o processo de impedimento de Dilma foi colocado em campo por Eduardo Cunha. A tese dos estelionatários do jornalismo era de que ao redor de Dilma havia uma malta de incompententes sob todos os aspectos: na política, na condução da economia, na administração do Estado. E que a frente golpista garantiria ao país “competência de gestão” em todas essas áreas. Depois do afastamento de Dilma, em maio, jornais e revistas, liderados pela Globo, introduziram à nação o “mago da articulação”, Michel Temer. Quantas habilidades nos foram apresentadas! Quanta capacidade dele e de seus auxiliares, gente como Serra, Geddel, Jucá, Meirelles e outros!

O que assistimos desde a segunda-feira demonstra que era tudo uma empulhação. Os “profissionais” levaram uma surra nesses dias e sua estreia no poder, depois do assalto, revelou-se um desastre. Eles estavam confiantes de que a parada estava decidida. De fato, quanto ao resultado da votação, estava. Mas o jogo não é só o placar final. Como aprendemos recentemente, uma coisa é perder de 7 a 1; outra é perder nos pênaltis depois de uma partida formidável. Foram três rodadas na reta final do golpe, na farsa do “julgamento” A primeira, na segunda-feira, parecia barbada para Temer e seus líderes no plenário do Senado: Renan, Cunha Lima, Aécio, Aloysio e Caiado — já é sintomático que a liderança política do golpe no Senado seja do casal PSDB-DEM, sem a presença do PMDB. Sim, pois Renam não é propriamente do “PMDB do Temer”, como ficou provado ontem.

Mas, vá lá: na segunda era para massacrar uma adversária derrotada, uma mulher diante de um tribunal de homens agressivos. Dilma tinha direito a um discurso e depois o roteiro era de desmoralização da presidenta já sem qualquer poder ao longo do interrogatório. No entanto, ela colocou todos os golpistas no bolso. Dilma surpreendeu com um discurso que já é uma das peças mais relevantes da história política do país. Ao longo do dia e da noite, à mercê do interrogatório de seus algozes, eles contavam com a inabilidade de Dilma e sua oratória vacilante e confusa. De fato, ao longo das horas ela perdeu-se em alguns momentos, confundiu-se aqui e ali. Mas o discurso da manhã e sua serenidade e firmeza no enfrentamento dos golpistas arrogantes impôs a eles a primeira grande derrota narrativa no processo do golpe.

Sim, eles contavam que a narrativa já lhes pertencia. Estavam confiantes no serviço prestado pela mobilização, por quase dois anos, da maior máquina de propaganda da história brasileira num descomunal esforço de desmoralização de Lula e Dilma e seus governos. Sofreram uma derrota fragorosa -eram todos os golpistas contra Dilma; e ela venceu. A terça-feira foi dedicada aos debates entre os advogados e pronunciamentos dos senadores. José Eduardo Cardozo abriu o dia arrasando com a dupla Paschoal-Reale Jr. Depois, nos debates, ficou clarividente que não se estava julgando uma presidenta por algum crime de responsabilidade, mas tratava-se de uma derrubada política, pelo “conjunto da obra”, na expressão rasteira que encontraram os farsantes. Quanto mais eles falavam, mais jogavam luz sobre sua trama.

E isso causou um “colapso narrativo” nos golpistas. Pois não existe no presidencialismo impeachment político do presidente, apenas a possibilidade de impedimento por crime. Como não há crime, o que restou meridiano, os senadores da direita precisavam atacar política e administrativamente o governo Dilma. Porém, como estavam num tribunal, essa linha narrativa não podia ser adotada plenamente, pois colocava em risco a legalidade do processo. Enredados por essa contradição, levaram outra surra dos senadores legalistas, democratas. Foram a nocaute quando Roberto Requião subiu à tribuna e, utilizando a expressão de Tancredo Neves contra um senador golpista de 64, Auro de Moura Andrade, apontou para a bancada da direita e acusou: “Canalhas! Canalhas! Canalhas!”.

Com duas derrotas acachapantes, os “profissionais” foram para a votação derradeira. Nas preliminares, foram embrulhados e tiveram que engolir a separação da votação em duas: a da derrubada propriamente dita e a da inabilitação de Dilma por oito anos. Plantou-se ali a semente da cizânia e do primeiro grave estrago na base parlamentar do governo. Na votação do golpe, 61 disseram “sim” — e serão lembrados por isso. Depois de divulgado o resultado no plenário, o clima azedado ficou patente. Nada de festa, ao contrário do pretendido pelos golpistas e a mídia. Um gosto de cabo de guarda-chuva para aqueles que se desnudaram diante do país. Golpe. Sem tirar nem por. Eles mesmos souberam, assim que Lewandowski anunciou o resultado, que este é o substantivo pelo qual será nominada a votação na história.

Para completar a desmoralização da narrativa do “crime de responsabilidade”, três senadores golpistas, em notas e entrevistas, reconheceram que não existiu crime nenhum, que tratou-se mesmo de uma deposição política. A liderança do golpe no Senado (PSDB/DEM) ainda sofreu o vexame de perder a votação sobre a inabilitação de Dilma. Outro revés narrativo — e jurídico — de monta. Ora, se houvesse crime, como não inabilitar a criminosa? Como impor à ré apenas parte de sentença se de fato ela cometeu os atos delituosos previstos na lei? Como é possível que uma criminosa mantenha seus direitos políticos e possa concorrer a cargos públicos depois de cometer atos terríveis tipificados na legislação? O resultado da votação demonstrou que se condenou Dilma sem que ela tivesse cometido qualquer crime.

Aécio, Cunha Lima, Caiado, Aloysio ficaram apopléticos -este último chegou a renunciar à liderança do governo; Cunha Lima disse que sequer iria à posse de Temer, mas depois foi, claro. E ainda tiveram que ouvir Renan, da Mesa do Senado, convocar os peemedebistas a votarem contra a inabilitação. A mídia conservadora tentou manter a cena e fazer de conta que tudo estava bem e a fatura liquidada — sim, o golpe concluiu-se, mas nada estava bem entre eles.

Encerrada a sessão, o processo continuou seu curso: a estreia do governo. Uma pantomima. Temer entrou mudo e saiu calado da posse no Senado. O local do crime contra a democracia parecia exalar um mau cheiro insuportável. O Temer da posse foi o Temer das Olimpíadas: acovardado, com medo das pessoas, das vaias, de expor-se a céu aberto. Temer é todo medo e o Brasil já percebeu. O usurpador — alcunha que pespegou-lhe Dilma no discurso histórico e o acompanhará para sempre — preferiu falar na segurança da sala de reunião com seus ministros e diante do teleprompter em rede nacional. Falando de improviso na primeira reunião ministerial, Temer revelou-se ao país. Para quem dizia que Dilma é inábil, grosseira, ela será qualificada de cortês e gentil depois do que fez Temer. Humilhou publicamente aqueles que lhe concederam a Presidência. Foi todo irritação com a derrota na votação da inabilitação, repreendeu seus líderes políticos, encenou “bater na mesa”, ameaçou. Em público! Diante das câmeras de TV!

Teve mais: Temer mostrou-se profundamente incomodado por ser chamado de golpista. Apesar de nos discursos que lhe entregam para ler ele fale em “conciliação”, afirmou aos seus ministros (diante da TV, repita-se) que acabou “a brincadeira” e que “não vamos levar desaforo pra casa”. Uma linguagem que eu não escutava desde garoto. Temer mostrou-se na primeira aparição não editada uma pessoa com uma instabilidade emocional aguda, capaz de rompantes e ameaças que são a capa sobre a qual tentar esconder o medo que lhe vaza por todos os poros. É a este homem que se entregou a Presidência. Tendo como ministro da Justiça um neofascista. A resultante imediata do golpe esteve à mostra nas ruas poucas horas depois da reunião com os ministros: repressão violenta em São Paulo, Ribeirão Preto, Porto Alegre, Brasília, Florianópolis, Caxias do Sul e Passos, entre outras cidades. No discurso editado, em rede nacional, promessa de eliminação de direitos sociais, a começar pela Previdência. Os golpistas derrubaram um governo eleito e tentarão impor seu programa de destruição do país e salvação dos seus interesses. Mas a estreia foi pífia. Não será o passeio que imaginaram.



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