Depoimento à Lava Jato põe em xeque venda de campo de Carcará pela Petrobras e abertura do setor às estrangeiras

por André Barrocal — publicado 27/09/2016 17h17, última modificação 27/09/2016 18h20


Luis Macedo / Câmara dos Deputados/Fotos Públicas // O empresário Eike Batista em depoimento à CPI do BNDES em novembro de 2015


A Petrobras anunciou há dois meses a venda de sua parte em uma área de produção de pré-sal para uma estatal da Noruega. Passada a eleição de domingo 2, o Congresso deve liquidar a votação de uma lei que permite às petroleiras estrangeiras explorar o pré-sal sem a brasileira ao lado. Duas decisões ruins e questionáveis, a julgar por informações do ex-bilionário Eike Batista.

O custo de extração de petróleo no pré-sal, diz Batista, está em 7 dólares por barril. Trata-se de um patamar bastante baixo, próximo aos 5 dólares de certos campos da Arábia Saudita, os mais lucrativos do globo. A despesa média das grandes companhias mundiais é de 15 dólares, segundo a Petrobras.

Batista soube do valor de produzir no pré-sal por meio do ex-CEO da British Gás (BG) no Brasil Nelson Silva, seu amigo e hoje dirigente da Petrobras. A BG atua em águas ultra-profundas em sociedade com a brasileira. Possui 25% do campo de Lula, na Bacia de Santos, pioneiro do pré-sal.

Com um custo de extração tão barato, o pré-sal é uma mina de ouro, segundo Batista. “É um show, um espetáculo, dali vai vir um futuro espetacular pra todos nós”, acredita o ex-bilionário. “Vai ter uma Petrobras que vai se reerguer aí devido à riqueza do pré-sal, e ninguém sabe que é tão rico.”



As informações e afirmações do empresário fazem parte de um depoimento dado a investigadores da Operação Lava Jato em 20 de maio. Graças a este depoimento, o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega acabou preso quando estava com a esposa doente em um hospital na quinta-feira 22 – foi solto cinco horas depois pelo juiz Sergio Moro, que antes ordenara a detenção.

Como se vê na transcrição e no vídeo do depoimento, Batista fala espontaneamente sobre o tema a dois integrantes da força tarefa, os procuradores de Justiça Roberto Pozzobon e Julio Carlos Motta Noronha.

Ao final do depoimento de 55 minutos, ele resolve contar um “dado bacana que vocês não sabem”, o cash cost do pré-sal. Tenta mostrar que, diante de um custo de extração reduzido, o pré-sal consegue gerar dinheiro mesmo com as baixas cotações do petróleo nos últimos anos. Hoje em dia, o barril oscila na casa dos 40 dólares, entre as menores cotações da década .

O entusiasmo do empresário com o assunto alimenta dúvidas sobre a recente venda de um campo de pré-sal pela Petrobras e sobre a intenção do governo Michel Temer de mudar a lei para que a estatal possa ser excluída de futuras operações no setor.

No fim de julho, a petroleira brasileira anunciou a venda de sua fatia de 66% do campo de Carcará, na Bacia de Santos, à Statoil, uma estatal da Noruega. Valor da transação: 2,5 bilhões de dólares, a ser liquidados até o fim deste ano ou o início de 2017.

Ao selar o acordo, Petrobras também ficou livre da obrigacão de investir cerca de 8 bilhões de dólares para viabilizar o início da produção do campo, previsto para 2020. Um ganho teórico, portanto, de 10,5 bilhões do dólares. Um valor para lá de duvidoso.

Carcará, diz a Statoil, possui de 700 milhões a 1,3 bilhão de barris, sendo 66% agora pertencentes à norueguesa. Em 2020 e 2021, o barril valerá 71 dólares, conforme previsões do mais novo plano de negócios da Petrobras. O custo de extração do pré-sal, segundo Eike Batista, é de 7 dólares o barril.

Considerando tudo isso, a Statoil apossou-se de uma reserva que valerá, descontado o custo de produção, de 29 bilhões a 54 bilhões de dólares em 2020, início esperado da produção. E pagará por esta reserva 2,5 bilhões de dólares, além dos investimentos de 8 bilhões.

Outra simulação: no dia em que a venda foi anunciada, 29 de julho, o preço do barril era de 42,46 dólares. Com base nesta cotação e no cash cost no pré-sal, a fatia da Statoil em Carcará valerá entre 16 bilhões e 30 bilhões de dólares em 2020.

“Estamos adquirindo isso em termos muito competitivos”, disse na época o vice-presidente-executivo da Statoil, Tim Dodson, em entrevista à agência de notícias Bloomberg.

Seus colegas de multinacionais devem estar salivando após recente viagem do presidente Michel Temer aos Estados Unidos. Aos empresários e investidores em Nova York, ele disse que em “brevíssimo tempo” haverá mudança na lei para permitir multinacionais no pré-sal sem a Petrobras.

Uma alteração apoiada pelo presidente da companhia, Pedro Parente. Ele e Temer reuniram-se nesta terça-feira 27 no Palácio do Planalto, para discutir o novo plano de negócios da Petrobras, fechado no último dia 20.

Após a reunião, Parente defendeu os estrangeiros no pré-sal. “É importante que o País possa ter outras empresas que se interessem em fazer esses investimentos. É importante para o País que a Petrobras não seja obrigada a participar de todos os campos.”

A Statoil que o diga.




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