O preço pago pelas elites brasileiras para a aplicação do golpe pode ter sido caro demais. Em dois anos, o país pode estar em situação de estagnação com desemprego e inflação elevados. A insatisfação será medida nos votos que candidatos nacionalistas obterão nas eleições de 2018. Isso, se a farsa da democracia não fracassar



do Brasil Debate

Cai o pano

por Marco Aurélio Cabral Pinto

Natureza do Golpe

Golpe é fenômeno súbito, que transforma de maneira irreversível os fluxos de forças na sociedade. O Golpe foi dado nos bastidores do poder e do dinheiro, quando se verificou que o resultado das urnas contrariava o duplo objetivo de: (i) desorganizar a aliança estabelecida entre grupo político (PT e PC do B) e elite empresarial (construção civil e naval com engenharia de ponta); e (ii) afirmar políticas neoliberais com objetivo de atender a aliança estabelecida entre os interesses patrimonialistas locais (finanças e agronegócio) e financeiros internacionais.

O primeiro sinal do Golpe se deu logo após as eleições, quando a Presidente eleita formou seu gabinete com ex-executivo do Banco Bradesco, missionado para ajuste fiscal. Ou seja, na direção contrária àquela que resultou das urnas. Ainda que a expectativa de corte de despesas tenha se frustrado, o banqueiro (não conheço ex) teve sucesso no aumento das taxas de juros.

Os sucessivos ataques financeiros à Petrobras mostravam o quanto incomodava a chegada do bravo caboclo brasileiro no tabuleiro internacional do “ouro negro”. A realização do leilão do primeiro grande bloco no pré-sal – Libra – se deu mediante engenharia geopolítica realizada pela Petrobras junto aos consumidores chineses e aos fabricantes europeus.

Sem restrições financeiras, os chineses avalizaram a estratégia proposta de aumentar em larga escala a demanda por navios-sonda no país. Considerando-se que não havia (agora não há qualquer) outro grupo de capital nacional com expertise em engenharia no país (o resto vendeu controle e hoje vive de “rendas financeiras”), o desafio tecnológico foi dado aos construtores. Cinco estaleiros ao longo do litoral brasileiro trariam impulso industrializante para todo o país.

A prisão de M. Odebrecht e de dirigentes da Petrobras mostraram que se tratava de ação coordenada com a finalidade de abortar projeto para o país. Um projeto que considerava a miséria oportunidade para, através do consumo das famílias, impulsionar a industrialização e a melhoria de vida nas cidades brasileiras.

Investimentos em infraestrutura logística e energética ao mesmo tempo em que atenderam aos anseios da indústria e do agronegócio permitiram que o Brasil conquistasse saídas no Oceano Pacífico para escoamento logístico para a Ásia. Algo que vinha sendo tentado há cerca de 150 anos pela diplomacia brasileira, sem sucesso.

O Golpe foi aplicado com apoio do Governo dos Estados Unidos (o juiz e muitos policiais federais foram treinados por agentes do Governo, assim como a tecnologia empregada pelo Departamento de Combate aos Crimes Financeiros é compatível com aquela utilizada pela NSA). O interesse dos norte-americanos, em primeiro lugar, se concentrou na questão do petróleo e, consequentemente, da desmontagem do arranjo construído pelo grupo nacionalista anterior.

Este processo está hoje ainda em curso – o ministro J. Serra foi, não por acaso, escolhido para a pasta de relações exteriores no grupo de confiança para o Golpe. Trata-se do mesmo senador que encaminhou projeto de Lei que revê o Regime de Partilha em favor das Concessões, sistema preferido das petroleiras internacionais. Faz parte das orquestrações internacionais construir-se a inviabilidade da candidatura do ex-presidente Lula em 2018.

Talvez a maior contribuição de Marx tenha sido a de revelar a importância da “hegemonia da narrativa” nos jogos do poder e do dinheiro. Neste quesito, os principais grupos de comunicação de massa atuantes no país foram enquadrados na agenda de construção de uma narrativa que conferisse ao Golpe legitimidade jurídico-institucional.

Como a história é mutifacetada e boa parte do mundo não fez parte da conspiração brasileira, a repercussão pelo The Guardian, New York Times e muitos outros veículos com jornalismo ético foi a pior possível. Perdeu-se o que parecia mais crucial, a tal da “hegemonia da narrativa” sobre o Golpe.

Neste quesito, os medíocres prestadores de serviços políticos para os donos do poder e do dinheiro igualmente perderam feio na arena onde supostamente deveriam triunfar. A Câmara dos Deputados se manifestou no processo com a crueza de quem está preocupada com o próprio umbigo, sem qualquer conexão com a nação. No Senado Federal, a defesa da Presidente apoiou-se em fatos, denunciando a manipulação, sem recorrer a argumentos como “o todo da obra” ou atribuir aos problemas econômicos à falta de políticas neoliberais!

O judiciário brasileiro sobrevive como instituição desde o século XIX. Ajudou a legitimar para os paulistas a escravidão por cerca de meio século após ser banida do resto do mundo. Omitiu-se nas principais questões nacionais, incluindo-se a questão da tortura e dos assassinatos políticos que jamais deixaram de ocorrer. Tal é o papel histórico do judiciário brasileiro, legitimar a injustiça e a exploração do território e da sociedade por uns poucos.

Finalmente, para completar a farsa, os organizadores políticos do Golpe alimentaram o ódio, nada latente, de segmentos conservadores incultos da classe média brasileira. Este ódio provém do preconceito contra convivência, experiências e espaço (praias, shopping centers, parques, shows, aviões etc.) com segmento que emergiu, que passou a fazer parte de uma sociedade de consumo capitalista.

O mais emblemático momento foi o reconhecimento de direitos trabalhistas para domésticas, que pressionou esta classe de mimados com o fim de privilégios escravagistas sobre as relações de trabalho.

E agora, o que esperar?

Mal terminado o processo de construção da narrativa, os interesses que levaram ao Golpe irão reclamar seus haveres. Principalmente os interesses financeiros, ansiosos por um novo momentum altista na bolsa de valores brasileira. Para que isso se verifique, há necessidade de se impulsionar nova onda de venda de controle de ativos públicos, boa parte destes sob comando de entes sub-regionais – Estados e Municípios.

A estratégia do novo Governo se ancora na atração de massas de capitais provenientes de fundos de investimentos, muitos dos quais se encontram em grande necessidade de reciclar liquidez em ambientes seguros e rentáveis. A valorização cambial dos últimos meses reflete a antecipação deste movimento.

Ao olhar para frente, percebe-se o agravamento da crise internacional, com transbordamentos do econômico para o político:

1.Com o Golpe no Brasil, a China e a Rússia perderam aliado importante no tabuleiro internacional. Por outro lado, ambos os países parecem responder com estreitamento de relações econômicas e militares entre si;

2.Dado que o aumento da influência dos EUA na Ásia encontra arsenais nucleares estabelecidos, a rivalidade expansionista parece direcionada para “guerra cambial”. A mesma queda nos preços internacionais de petróleo que prejudicaram a Petrobras foram responsáveis pelo enfraquecimento econômico da Venezuela, da Rússia, da Argentina, da Bolívia e de países africanos produtores de petróleo (Angola);

3.O elevado desemprego europeu e a invasão populacional islâmica no continente têm fortalecido teses nacionalistas em detrimento de “um mundo sem fronteiras”. O Brexit deslocará a Inglaterra da condição de principal praça de conversão de moedas internacionais. Este será o preço pago pelos ingleses pelo direito de não envolvimento militar na Europa.

4.Nos EUA, qualquer tentativa, por parte das elites financeiras, de reversão da liquidez internacional, resultaria no colapso econômico das principais economias ocidentais. Ou seja, os EUA estão presos à condição de prover liquidez para um sistema bancário que enfrenta desafio de reciclar grandes blocos de capital no curto prazo. Como uma bola de neve.

Antecipa-se, ainda, conjunto de dificuldades no ambiente interno:

1.Há necessidade de continuidade nas investigações, com implicação de políticos de outros partidos, incluindo-se membros do Governo;

2.O custo econômico do impeachment se materializará em gastos fiscais do interesse de deputados e senadores, conspirando contra o “ajuste”;

3.O aumento no desemprego e a queda na arrecadação expõem os bancos comerciais brasileiros, na medida em que aumentam os saques da poupança e a inadimplência, principalmente na carteira de crédito habitacional.

4.A valorização cambial inibe as exportações e contribui para a instabilidade do balanço de pagamentos, aumentando-se a fragilidade externa.

Considerando-se a “obra como um todo”, o preço pago pelas elites brasileiras para a aplicação do Golpe pode ter sido caro demais. Se muito alto, o custo do Golpe terá sido, ao cabo de dois anos, colocar o Brasil em uma situação de estagnação com desemprego e inflação elevados. O tamanho da insatisfação da sociedade brasileira só será proporcional aos votos que candidatos nacionalistas obterão nas eleições de 2018.

Dito isso, será que dois anos são suficientes para que os interesses golpistas recuperem prejuízos incorridos com a aplicação do Golpe? Se a resposta for realmente não, receio que a suspensão dos direitos políticos e econômicos dos cidadãos brasileiros está apenas por começar. Nestas circunstâncias, acho que até mesmo a farsa da democracia brasileira há de fracassar. Oremos.


Marco Aurélio Cabral Pinto - É professor da Escola de Engenharia da Universidade Federal Fluminense, mestre em administração de empresas pelo COPPEAD/UFRJ, doutor em economia pelo IE/UFRJ. Engenheiro no BNDES e Conselheiro na central sindical CNTU

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