Marcelo Auler

Flagrante de um dos “40 baderneiros” que segundo Michel Temer preocupam o papa Francisco. Foto Lara Bittencourt/Mídia Ninja

O presidente golpista Michel Temer resolveu interpretar a fala do papa Francisco. O fez de forma cínica, sem modesta. Na gíria popular, teve a “cara de pau” de tentar “tampar o sol com a peneira”. Quando, no sábado (02/09) o papa abençoou a imagem de Nossa Senhora de Aparecida instalada nos Jardins do Vaticano, ele pediu orações “para que Nossa Senhora Aparecida siga protegendo todo o Brasil, todo o povo brasileiro, neste momento triste”.

Nas explicações da Agência de Notícias Italiana ANSA não há dúvidas sobre a motivação do comentário de Francisco:, “Papa diz que Brasil atravessa ‘momento triste’ -Francisco fez hoje um comentário sobre o impeachment de Dilma“. Mas Temer, que no sábado estava em um shopping da China comprando sapatos e brinquedos mande in China, não entendeu dessa forma, conforme entrevista concedida no domingo (04/09).

O papa ao abençoar a imagem pediu orações pelo Brasil. Reprodução.

Sem ficar vermelho – afinal, como lembrou Elio Gaspari, ele “move as mãos, mas não mexe os músculos do rosto nem altera a voz” (em Temer diz uma coisa e seu contrário) tentou afastar “esse cálice” e passar a imagem de que o papa estava contra as manifestações de rua que no mesmo domingo juntaram milhares de pessoas em diversas cidades:


“Depredação isso é delito, isso não é manifestação. E acho que, nesse sentido é que o papa, que é sábio, vendo tudo isso, ele diz ‘orem pelo Brasil’,. Para que? Para, quem sabe, fazer o que eu tenho pregado: vamos pacificar o país. Quem faz uma oração, faz para que a ação seja pacificadora. Eu acho que isso é o que o papa está pedindo“, disse, movendo as mãos mas, desta vez, deixando transparecer um riso irônico. Ou cínico. Como preferirem.

Temer, ao que parece, não conhece bem o papa e certamente nem deverá conhecer. Afinal, Francisco suspendeu a viagem que faria ao Brasil em 2017. Basta, porém, lembrar da passagem de Sua Santidade pelo Brasil quando, na manhã de 25 de julho de 2013, ao visitar o complexo de favelas de Manguinhos, no Rio de Janeiro, falou na direção das centenas de milhares de jovens que saíram às ruas, no Brasil, durante os protestos no mês anterior:


“Vocês, jovens, têm uma sensibilidade especial frente às injustiças, mas muitas vezes se desiludem com notícias que falam da corrupção de pessoas que, em vez de buscar o bem comum, procuram seu próprio benefício. Nunca desanimem, nunca percam a confiança. Não deixem que se apague a esperança, a realidade pode mudar. O homem podem mudar. Procurem ser vocês os primeiros a procurar o bem“.

Pode-se imaginar que o autor desta recomendação, hoje peça orações contra as manifestações de rua, como gostaria Michel Temer?

Francisco lê a carta de Marcello Lavenére na frente da Letícia Sabatella e da juíza Kenarik Boujikian Felippe

Se Temer acha que o papa está alheio ao golpe por ele perpetrado com os políticos que o rodeiam, deveria lembrar que Francisco já se manifestou anteriormente a respeito da situação do Brasil. A mesma agência ANSA no último 2 de agosto, divulgou que “o Papa havia escrito uma carta de apoio à ex­-presidente Dilma Rousseff, que foi destituída do seu cargo há três dias, condenada no processo de impeachment por crimes de responsabilidade fiscal, as chamadas “pedalas fiscais”.

Dilma confirmou à ANSA que recebeu a carta de Francisco, mas se negou a dar mais detalhes sobre o conteúdo da conversa. “Digo apenas que não foi uma carta oficial”, afirmou a petista. “Não foi uma carta do Papa em sua condição de representante do Vaticano. Não tem importância [o conteúdo]. Não é uma carta para ser divulgada”, disse segundo a ANSA.

Em 9 de maio, Francisco recebeu no Vaticano a atriz Letícia Sabatella, que lhe entregou um documento contra o impeachment de Dilma redigido pelo advogado Marcello Lavenére, ex-presidente da OAB e protagonista do pedido de impeachment de Fernando Collor em 1992. O papa leu a carta na presença da atriz e da juíza Kenarik Boujikian Felippe, co-fundadora da Associação de Juízes para a Democracia.

Temer referiu-se às manifestações que se repetiram ao longo da semana como sendo de baderneiros, depois de tentar minimizar o número de participantes. “São pequenos grupos, parece que são grupos mínimos, né? (…) Não tenho numericamente, mas são 40, 50, 100 pessoas, nada mais do que isso. Agora, no conjunto de 204 milhões de brasileiros, acho que isso é inexpressivo. O que preocupa, isto sim, é que confundem o direito à manifestação com o direito à depredação”, disse, segundo reproduziram os jornais e os sites.

Dúvidas sobre imagens da TV Globo - Como presidente da República, mesmo estando do outro lado do mundo, Temer recebe informações privilegiadas dos órgãos de segurança. Portanto, não faz confusão por desinformação, mas por cinismo. Deve receber informações também tanto pelo seu aliado, o governador paulista Geraldo Alckmin, como por seu ministro da Justiça, Alexandre Moraes, que como ex-secretário de Segurança de São Paulo conhece bem a violência da Polícia Militar paulista.

Não desconhecerá que a PM foi a responsável pelo tumulto neste domingo. Afinal, em outras capitais, como Curitiba, também ocorreram manifestações sem qualquer confusão. O que houve em São Paulo fica claro na reportagem do El País, de Carla Jimenez – Milhares vão às ruas contra Temer em SP e PM reprime ato com justificativa controversa. A matéria, inclusive, levanta dúvidas sobre imagens da TV Globo. Do site do jornal retiramos alguns trechos:

No Paraná, além do Fora Temer, os “40 baderneiros”n também criticaram Sérgio Moro. Foto: Leandro Taques/Mídia Ninja


Havia milhares de pessoas na avenida Paulistaneste domingo protestando contra o presidente Michel Temer em uma manifestação convocada, inicialmente, pelos coletivos Frente Brasil Popular ePovo Sem Medo. Em nada lembrou os outros cinco atos que aconteceram ao longo da semana que passou em São Paulo, e que foram classificados de “grupos pequenos de não mais que 40 a 100 pessoas”, como disse o presidente Temer em entrevista na China. A PM não divulgou o balanço de público. Na conta dos organizadores, eram 100.000 pessoas: famílias com crianças de colo, jovens e manifestantes ligados a movimentos sociais que lotaram a avenida, e marcharam, a partir das 18 horas, até o Largo da Batata. Tudo correu de maneira tranquila e organizada, como atestou a reportagem do EL PAÍS, entre as 16h30, horário marcado para começar o ato no MASP, e as 20h45, quando os manifestantes já estavam no Largo, depois de marchar por mais ou menos cinco quilômetros. (…)


(…) Imagens de uma vidraça quebrada em um estabelecimento na avenida Paulista, divulgada pela Globo News, explicaria mais tarde o que a PM procurou justificar. Mas, os seis jornalistas do EL PAÍS que seguiram a marcha dos manifestantes em distintos pontos do percurso não presenciaram nenhum ato de vandalismo, o que não deixa claro se a tal vidraça quebrada foi uma reação posterior à violência policial. Outras dezessete pessoas que estavam no protesto relataram, por rede social, também não ter visto nada que pudesse ser considerado ‘vandalismo’.

Às 22h45, a Secretaria de Segurança do Estado divulgou uma nota alegando que houve um princípio de tumulto na estação, que “se transformou em depredação. Vândalos quebrando catracas, colocando em risco a vida de funcionários”. A repórter Marina Novaes se encontrava no local na hora das bombas e não viu nenhuma catraca depredada. Mais tarde, a ViaQuatro, concessionária responsável pela estação Faria Lima, disse que a confusão resultou em uma lixeira, uma luminária e uma catraca quebrada. O que também não deixa claro se esses prejuízos foram provocados após as bombas terem sido atiradas.

A íntegra da matéria está em: Milhares vão às ruas contra Temer em SP e PM reprime ato com justificativa controversa.

Quem preferir pode ler o depoimento de Ricardo Kotscho e a comparação que ele, que foi chamado por Ulisses Guimarães como o repórter das Diretas Já, faz com as passeatas do longínquo 1982, Copio aqui os três primeiros parágrafos.
Mar de gente no maior protesto contra Temer

“Eu vi, ninguém me contou. Da janela do apartamento de um amigo, no 11º andar de um prédio na esquina da avenida Rebouças com a rua Oscar Freire, vi um mar de gente descendo da avenida Paulista para a Largo da Batata, em Pinheiros, na maior manifestação de protesto contra o presidente Michel Temer após a aprovação do impeachment na semana passada.

Por mais de 50 minutos, vi aquela multidão caminhando em blocos compactos, cantando e gritando palavras de ordem contra o governo e a favor de eleições diretas já. Ainda tinha muita gente vindo da avenida Paulista quando a comissão de frente já tinha cruzado a avenida Brasil, umas dez quadras abaixo. Havia muitas faixas, cartazes e bandeiras, mas não não vi passar nenhum mascarado.

Quantos eram? Se depender da imprensa, nunca vamos saber, porque o Datafolha não faz mais seus cálculos de manifestantes, como acontecia nas manifestações anteriores ao impeachment, e a Polícia Militar agora não divulga nem estimativas. Em todo o noticiário que vi e li, repórteres só falam em “milhares”. Como sabemos, milhares podem ser 2 mil ou 200 mil pessoas……”



Marcelo Auler
Axact

Ronaldo

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