Kelly Grovier
Da BBC Culture

Image copyrightCARLOS VERA MANCILLA/REUTERSImage captionImagem foi clicada durante protestos em Santiago no aniversário do golpe militar chileno

Encarar alguém tem poder. A capacidade de comandar o olhar de outra pessoa e de petrificar sua mente e músculos apenas com a determinação de olhos, sem piscar, é algo que requer disciplina e muita coragem. Trata-se de uma maneira de reivindicar sua existência no mundo e se firmar no momento.
Uma imagem feita pelo fotojornalista Carlos Vera Mancilla em Santiago, no Chile, na semana passada, captura exatamente a força desse tipo de olhar. A foto - tirada durante protestos que marcaram o 43º aniversário do golpe militar que resultou na derrubada do presidente Salvador Allende por Augusto Pinochet, em 11 de setembro de 1973 - mostra uma jovem nada intimidada medindo-se com um policial armado enquanto o encara de maneira desafiadora através do visor dele.

O registro foi feito na frente do Cemitério Geral de Santiago, onde Allende está enterrado e onde foi instalado um monumento aos "desaparecidos" durante o regime de Pinochet.

A foto, que foi compartilhada dezenas de milhares de vezes na internet, representa mais do que uma simples disputa entre as perspectivas opostas da ordem e da rebeldia. Entre as pupilas do policial e as da manifestante pulsa a convicção de que a visão não é um simples ato passivo, mas sim uma força transformadora, uma energia elementar.

Subversão da ordem


Image copyrightGETTY IMAGESImage captionPerformance de Marina Abramovic convidava espectador a encarar artista em silêncio por alguns minutos

O crítico de arte britânico John Ruskin, que viveu no século 19, costumava dizer: "Todas as grandes e belas obras vêm de um primeiro olhar que não se recolhe à escuridão".

Apesar de falarmos da separação entre olhar e fazer, entre o passivo e o ativo, Ruskin entendeu que contemplar é uma espécie de ação e, ao mesmo tempo, um componente indispensável da criação.

Fotos semelhantes já foram tiradas, por exemplo, no Brasil - um caso recente é o de uma estudante que encara com firmeza policiais durante protesto contra a reorganização das escolas estaduais em São Paulo, em dezembro passado - e nos EUA - a foto da jovem Ieshia Evans, durante protesto de julho contra a violência policial em Baton Rouge, Louisiana, virou símbolo da tensão racial no país.

Image copyrightREUTERSImage captionFoto que mostra Ieshia Evans diante de policiais virou símbolo da tensão racial nos EUA

Na foto chilena, o embate hipnotizante entre a manifestante e o policial levanta questões intrigantes sobre o poder do olhar na cultura, de maneira geral. No mundo das artes, espectadores acabam presumindo como normal o fato de que enxergar é algo secundário diante do ato primário de se criar uma obra.

Trata-se de uma suposição que a artista performática sérvia Marina Abramovic tentou desafiar com sua obra The Artist is Present ("A artista está presente"), de 2010. Por mais de 736 horas, Abramovic encarava em silêncio os olhos de qualquer visitante que se dispusesse a se sentar diante dela em uma galeria vazia do Museu de Arte Moderna de Nova York.

Ao não se subordinar mais ao estímulo físico de uma pintura ou escultura, de um desenho ou de um filme, o olhar humano, tanto físico como psicológico, foi repentinamente isolado - como se fosse o próprio elemento que nos dá a capacidade de existir.

BBC Brasil
Axact

Ronaldo

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