PSDB cobra ajuste fiscal do Planalto, mas rompimento teria de equacionar ministros no Governo

AFONSO BENITES
Brasilia

Aécio Neves e Ronaldo Caiado nesta quinta-feira, no Senado. UESLEI MARCELINO REUTERS


Nos bastidores do impeachment de Dilma Rousseff (PT), o PSDB tem emitido sinais de que, se Michel Temer (PMDB) se confirmar na presidência, poderá perder o apoio da legenda que tem atualmente dois ministros, onze senadores e 51 deputados federais. A principal queixa pública é que o Governo não tem encampado pautas de corte de reajustes e equilíbrio das contas públicas, mas tem também como pano de fundo o posicionamento dos tucanos rumo às eleições de 2018. O racha ocorreu nesta semana quando os tucanos sugeriram a reprovação do aumento salarial dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) – de 33.700 reais para 39.000 reais – e a gestão peemedebista não comprou a proposta.

O descontentamento, contudo, não deverá implicar nos votos a favor do processo de impedimento da petista, apesar de aliados dela brincarem com o assunto. “Do jeito que está, vou pedir até voto para o Antônio Anastasia”, disse a senadora e ex-ministra de Rousseff Kátia Abreu (PMDB-TO) ao se referir ao relator do processo de impeachment no Senado, filiado ao PSDB de Minas Gerais. Nos corredores do Senado é comum ouvir conclusões como essa feita por um senador governista que luta para evitar a debandada: “Passou o impeachment, os tucanos voam”.

Os peessedebistas estão insatisfeitos em não participar da política econômica - liderada por Henrique Meirelles, alguém que poderia ter seus próprios interesses em 2018 - e serem obrigados a defender medidas que, para eles, seriam um contrassenso com seu discurso mais tradicional, como o reajuste dos magistrados do STF. O bônus seria pequeno diante do ônus, daí as queixas públicas. Se o Governo Temer não conseguir reequilibrar as contas públicas, ao menos a mensagem, mesmo se não romperem de fato com o Planalto, será a de que o tucanos permaneceram fiéis à meta de equilibrar as contas públicas, um ativo importante na disputa presidencial. Para 2016, o déficit será de 170 bilhões de reais e a previsão de 2017 é que chegue aos 139 bilhões de reais.

O relator do aumento salarial nos ministros do STF na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, Ricardo Ferraço (PSDB-ES), sugeriu o engavetamento do assunto e calculou que os reajustes gerariam um efeito cascata nos vencimentos de diversos servidores públicos no valor aproximado de 4,5 bilhões de reais ao ano. A razão é que vários salários são vinculados ao teto do funcionalismo, que é exatamente o da carreira de magistrado do Supremo.

A insatisfação também chegou ao líder do Governo no Senado, Aloysio Nunes (PSDB-MG). Ele ameaçou abandonar o cargo caso a gestão Temer não intensificasse os cortes de gastos. Flagrado recentemente conversando com outros colegas sobre a revoada da gestão Temer, o presidente do diretório nacional do PSDB, o senador mineiro Aécio Neves, amenizou o tom das críticas que alguns de seus colegas fazem nos bastidores, mas mostra que o apoio não está 100% garantido.

– O PSDB vai abandonar a gestão Temer após o impeachment? – questiona a reportagem do EL PAÍS.

– Não estamos pensando em rompimento. Agora tenho certeza de que o presidente compreende que sem enfrentar essa agenda de reformas, não tem Governo. Vamos dar nossa contribuição até o momento que nós acharmos que ele está fazendo esforço necessário – responde Neves.

– E Temer deu algum sinal de que está se esforçando?

– A expectativa nossa é que com o fim do impeachment tenhamos um Governo sem ambiguidades. É o que nos garantiu o presidente e eu só tenho motivos para acreditar nele.

Acirramento e divisão


Entre os peemedebistas, contudo, a avaliação é que haverá um acirramento na relação, mas não ao ponto de rompimento. “Quem ameaça não cumpre. Se fosse para romper, já romperiam. Não podemos deixarmos ser levados por rompantes de um ou outro parlamentar”, afirmou um senador do PMDB.

O acirramento teria de lidar, principalmente, com a presença dos dois ministros tucanos, o senador José Serra, das Relações Exteriores, e o deputado Bruno Araújo, das Cidades no Governo. Ambos lutariam para seguir governistas por terem pretensões eleitorais. Serra seria um dos nomes para disputar a eleição presidencial de 2018 e, no Governo, ganha força na disputa com o próprio Aécio, e Araújo, o Governo de seu Estado, Pernambuco.

Esses mesmos peemedebistas viram um equívoco no discurso de austeridade da bancada do PSDB no Senado. Nos últimos dois meses, eles apoiaram uma série de projetos que concedia reajustes salariais a servidores públicos. Entre as categorias beneficiadas estavam servidores do Judiciário, membros da Defensoria Pública da União, das Forças Armadas e da Advocacia Geral da União. “Por que vão apoiar uns e não outros? Não faz sentido. O PSDB não sabe tudo de economia e tem de aprender a negociar”, concluiu um dos parlamentares.

Nos próximos dias, Temer começará a sentir pressão ainda maior. O Democratas, que possui quatro senadores, 27 deputados federais e um ministro também enviam recado: “Se não estivermos de acordo, podemos agir com independência”, afirmou o senador Ronaldo Caiado (DEM-GO).

EL PAÍS Brasil
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