do Pandora Livre

Nove tipos da direita brasileira

por Mariana Nóbrega

Iniciado o processo de redemocratização brasileiro, trafegavam na política nacional os herdeiros do MDB e os militantes de esquerda que lutaram contra a ditadura ou participaram de movimentos sindicais, do campo ou eclesiais de base. O trauma da ditadura garantia uma unidade entre esses movimentos, que clamavam pela instauração de uma democracia neste país. Partidos como o PSDB e o PMDB caminhavam pelo centro, pendendo vez ou outra para a esquerda ou para a direita. De outro lado, os partidos assumidamente de direita serviam para divertir o tedioso horário eleitoral, com figuras análogas aos Enéas e Fidelixes da vida.

Algumas poucas décadas depois desse processo, instaurado um governo de esquerda neste país, insatisfações justas e injustas modificaram a cara das pessoas, dos movimentos e dos partidos aqui existentes. No meio dessa chacoalhada, acordaram o Gigante da direita brasileira, que parecia não existir. Estamos aqui para fazer você entender esse recente fenômeno social e político. Afinal, quem é essa nova direita brasileira? Bateu um Weber no Pandora Livre e mostramos abaixo os tipos mais representativos dessa categoria emergente.



1. A direita festiva: A direita festiva existe, apesar de ser uma minoria e perder em termos de animação para a esquerda festiva, como já ressaltou o rapaz Pondé. Isso porque nem todo mundo tem o cacife, ou melhor, a bufunfa necessária para participar de suas celebrações. Eles têm horror a festa gratuita e as festas pagas só podem ser curtidas no espaço mais caro do recinto; com a bebida que pisca, obviamente. A palavra-chave aqui é VIP, Very Important Person, porque são selecionados no meio desta gentalha tropical. Os queridinhos deste grupo geralmente são conhecidos pelo primeiro nome no diminutivo e o sobrenome de algum grande empresário – claro, o seu progenitor -, algo que soa como Mauricinho Loyola, Ricardinho Mesquita, Bernardinho Alcântara. Nas redes sociais, estão sempre a compartilhar as festas de sucesso de que participam ou que ainda vão participar. No último caso, com a frase “hoje tem!”. Sua vida é uma festa na ilha de Caras. Não curte muito política, sabe que odeia o Bolsa Família, e admira o nosso próximo representante, que dá as bases ideológicas para sua visão de mundo: o playboy cabeça.

2. O playboy cabeça: O playboy cabeça se orgulha em poder discutir tête-à-tête com a intelectualidade de esquerda. Fala francês com aquele errezinho difícil e conhece o Velho Mundo como ninguém. “Não sou turista”, esclarece, pois conhece a fundo, como um local, cada esquina de Paris, cada grão de areia da Côte d’Azur. Seus mentores são Rodrigo Constantino, Olavo de Carvalho e Reinaldo Azevedo. Ao contrário da direita festiva, não é muito afeito a badalações; prefere um queijos e vinhos aconchegante com os amigos bem sucedidos e, se fizer frio, pode até rolar uma gola rolê. Apesar de nascido em berço de ouro, tem a qualidade de se tornar independente financeiramente quando adulto, ao contrário do festeiro acima, que é famoso em dilapidar o patrimônio familiar. Botou na cabeça que só ele trabalha e paga impostos neste país. No final das contas, resolve que não vai dar esse gostinho para o Governo e malandra com o Leão.

3. O falso classe A: Nunca viu nem comeu caviar, mas até que disfarça bem pelo discurso. Tem a impressão que os seus 5 mil reais de salário lhe deram a condição de membro da nata brasileira. Teme que sua fortuna seja extraviada pela ditadura comunista e pela sua empregada doméstica que, aliás, anda atrevidinha demais. Está de olho na cotação do dólar, para fazer aquele sacolão em Miami nas próximas férias.




4. O indignado-com-tudo-isso-que-está-aí: O indignado-com-tudo-isso-que-está-aí pode ser seu tio, pode ser seu avô, pois está dentro de todas as classes sociais e nas melhores famílias. Ele está muito, muito indignado com toda essa sujeirada que só surgiu agora no Brasil com o PT. Por isso sai peia da vida pelas ruas, destemido, com semblante revolucionário. Põe sua camiseta da CBF, faz o cara-pintada e põe o seu nariz de palhaço, mostrando que não aguenta mais ser feito de bobo por essa corja. Segue a multidão entoando um “Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”; mas, peraí… Avista um trio elétrico com uma faixa e os dizeres “Intervenção militar já!”. Fica espantado, depois, intrigado, e começa a gritar: “Ei, sai daê, po! Sai daê, minha gente! Eu não vim aqui por isso, não! Vocês estão estragando tudo!”.

5. O intervencionista: Assim como na esquerda temos aquele figura que queima todas nossas manifestações – aparece pelado, com um bode morto nas mãos fazendo performance e estraga todo o planejamento do protesto -, o intervencionista é o mela-manifestação da direita. Constrange todo mundo que está ali com seu nariz de palhaço, com a melhor das intenções, querendo limpar a corrupção do país – que só surgiu na última década, com o PT. Está sempre a disseminar conspirações acerca da ditadura bolivariana e do foro de São Paulo.



6. O requentador de Guerra Fria: Está você com sua sandália de couro, sua camiseta com foto do muso Che, sentado tranquilamente no ponto de ônibus. De repente, aparece na rua um senhor lôko com um jornal debaixo do braço que começa a gritar “Vai pra Cuba!”, “Defensor de assassino!”. Você para de ler seu livro da Boitempo, fica atônito. Pergunta o que está acontecendo. “O muro de Berlim caiu”, ele responde. Você perde o seu tempo explicando de Marx a Piketty, explica todas as peculiaridades da esquerda, admite os erros, fala das limitações que sofreu, os problemas que podem ser contornados. Com um sorriso no rosto de missão cumprida, você conclui. Ele retruca, mais calmo, “Ah, vai pra Cuba!”.

7. O ex-esquerdista: Geralmente pertencente a uma faixa etária maior de 40 anos. Antigo apaixonado do PT ou do Partidão. Associava a esquerda ao pobrismo e, por isso, depois que ascendeu, preferiu esquecer tudo aquilo que dizia acreditar. “Eu já fui como você”, é assim que rebate qualquer comentário esquerdista dos mais jovens, pois ser idealista não passa de um arroubo juvenil. Perdeu todos os amigos do seu passado pé-de-chinelo, pois é um comentarista de Facebook voraz, ácido, e não mede palavras para desmascarar toda essa bobagem do tempo dos dinossauros.

8. O teocrata: Antes fosse só Bolsa não sei o quê, Bolsa não sei que lá. O problema é que foi o PT que deu espaço para toda essa ditatura gayzista-feminazi. Homem com homem, mulher com mulher, onde este mundo vai parar? Os valores cristãos, onde estão os valores cristãos? Aí você, para lacrar, pergunta de volta onde está a caridade, o respeito ao próximo. Raspar a barba também é proibido na bíblia e está você aí fazendo depilação a laser.

9. O parece-esquerda-mas-não-é: O cara tem aquele jeito wild que as minas da esquerda curtem. Barbudo, camisa florida aberta na altura dos mamilos, uma barriguinha saliente sedutora – sinalizando que você pode pegar mais leve nos exercícios. Começa a tocar um violão, arranhando uma MPB e sua banda britânica favorita. Seus olhos brilham. Você se senta perto dele, ele te oferece um baseado, você recusa educadamente – recuso, mãe –, e aí ele começa a falar da criminalidade do país, que bandido bom é bandido morto, que mulher é tudo puta, que odeia bolsa vagabundo. Você não pode acreditar o quanto as aparências enganam. Nem os barbudos e maconheiros se salvam!



Pessoal, vamos continuar nossa amizade? Parentes, o Natal continua de pé. Prometemos que quando a situação estiver melhor para o nosso lado faremos um especial da esquerda. Também temos nossos ícones. Aguardemos.

Mariana Nóbrega é doutoranda em ciências criminais e mestra em ciências jurídicas. Pesquisa sobre direitos humanos, teorias feministas e criminologia. Também é servidora pública e mais uma advogada de araque neste país de direitoloides.



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Blogueiro e livreiro, reproduzo as notícias que considero interessante para os amigos e disponíbilizo meu acervo de livros para possíveis clientes. Boa leitura e boas compras.

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