Parece um paradoxo que, ainda quando a mídia quase nunca utilize os termos e conceitos de classes sociais, estas persistam na consciência das pessoas.


Vicenç Navarro *, para Publico.es






Um dos livros escritos no Reino Unido que gostaria que fosse amplamente lido na Espanha (ao ser especialmente relevante para este país) é excelente “A demonização da classe operária”, de Owen Jones Chavs. Nele, o autor detalha como a sociedade britânica, caracterizada por uma estratificação por classes sociais bastante acentuada, viu a classe dominante, que controla os grandes meios de informação, introduzir uma cultura de supervalorização de si mesma e do desejo das demais pelo seu status, enquanto difundiu também o menosprezo e a discriminação à classe trabalhadora, utilizando em sua linguagem expressões ofensivas para definir tal classe. Um exemplo é a utilização do termo “chavs” para definir o proletariado, a palavra utilizada no título do livro, que equivaleria a definir os membros da classe trabalhadora como a “classe baixa”.

De certa forma, a situação é ainda pior na Espanha, onde sequer se usa mais o termo “classe trabalhadora”, que praticamente desapareceu do discurso político, literário e raramente aparece nos meios de comunicação. As séries televisivas têm como protagonistas profissionais da classe média, de renda alta, que refletem esta visão (errônea) de que a maioria da população é e se sente de classe média. Na Espanha o termo “classe trabalhadora” definitivamente deixou de existir, de forma que, na estratificação social mais utilizada na mídia (até mesmo por acadêmicos) se distinguem três classes: a classe alta, a classe média e a classe baixa, utilizando este último termo para definir a classe trabalhadora, a qual considera-se que está desaparecendo, próxima da extinção. Atualmente, até mesmo alguns líderes de esquerdas se resistem a utilizar o termo “classe trabalhadora”, por considerá-lo antiquado, e em seu lugar a dividem em classe média e classe baixa.

A desaparição do discurso de classes: a Guerra Fria continua viva na cultura do país

Os Estados Unidos são o país onde se fizeram essas mudanças de definições, já nos Anos 50, quando já não se utilizava os termos de classe capitalista, classe média rentista e classe trabalhadora, substituídos por classe alta, média e baixa – uma mudança de linguagem que ocorreu em plena efervescência da Guerra Fria, quando se tentou varrer qualquer elemento que soasse como socialismo ou comunismo em toda a sociedade estadunidense. O último que a estrutura de poder queria era que se conservasse alguma consciência de classe por parte da classe trabalhadora.

Naquele período, nos centros intelectuais do país, em universidades e fundações, nos meios de comunicação mais importantes, se redefiniu o conceito de classe, que passou a se basear pelo nível de renda do indivíduo, independentemente da origem de tal renda. O objetivo era evitar por todos os meios que se estabelecesse uma consciência de classe, ocultando ou tentando evitar qualquer percepção que significasse o reconhecimento da existência de classes sociais que pudessem estar em conflito. Em seu lugar, se enfatizou o rol dos indivíduos na busca do “sonho americano”, segundo o qual todo individuo poderia subir pela escala social em base ao mérito e a oportunidade. Desta maneira, a linguagem de conflito coletivo, incluindo o conflito de classes, desapareceria, e com ele também se esvaneceria o conceito de classes.

O que era permissível na narrativa e na linguagem dominante era agrupar os indivíduos segundo a hierarquia social, tomando o nível de renda como indicador do lugar que ditos indivíduos ocupavam na escala social. A redefinição das classes em alta, média e baixa, e não mais classe capitalista, média rentista ou trabalhadora, foi uma mudança de grande importância, que serviu para mascarar a dinâmica de poder da ordem capitalista. A sociedade de classes passou a ser apresentada como a sociedade de níveis de renda, sendo o mais baixo o que correspondia a que, objetivamente, continuava sendo a classe trabalhadora, a classe que adquire suas rendas a base de trabalho assalariado, numa relação subordinada com a classe capitalista, mediada nesta relação pela classe media, que não é objetivamente a maioria da população – que continua sendo a classe trabalhadora.

Ultimamente a classe capitalista, que nos Estados Unidos é chamada de classe corporativa (“the corporate class”), e que inclui os proprietários e gestores do grande capital (as maiores corporações financeiras e econômicas dos diferentes setores econômicos do país), passou a ser definida como o 1% (mostrando, assim, o elevadíssimo grau de concentração da propriedade do capital), situado diante dos demais 99% da população. Esta visão do capitalismo, que os movimentos sociais contestatórios como o Occupy Wall Street tornaram sua, tem algo de verdade, pois este 1% necessita, para sustentar o seu domínio, que um setor da população atue em função disso. Este setor cumpre um papel fundamental na reprodução do sistema e está constituído pela classe média de renda alta (incluindo a classe média profissional), que tem interesses diferentes dos da maioria da população, pois seu poder depende da sua relação com o 1% superior. E o 1% não estaria onde está sem a existência e o apoio deste setor cujo tamanho vai do 15% ao 20% da população. Estão incluídos nesta população, por exemplo, todos os gerentes e diretores dos meios de informação, comunicação e persuasão. Por isso, o conflito passa a ser não só do 1% contra o 99% restante, mas sim do 1 19% contra o 80% restante.

Existe consciência de classe?

Parece um paradoxo que, ainda quando os meios de informação quase nunca utilizam os termos e conceitos de classes sociais, estas persistam na consciência das pessoas. Assim, a população dos Estados Unidos apresenta sua identificação social tendo como alternativas a credencial de classe alta, classe média ou classe baixa, diante das quais a grande maioria responde que faz parte da classe média, do qual se deduz, erroneamente, que a maioria da população se considera de classe média. Se a eleição fosse entre classe alta, classe média ou classe trabalhadora, a maioria dos e das estadunidenses se definiriam como classe trabalhadora, e não como classe média. Nos Estados Unidos, a grande maioria (cerca de 56%) das pessoas entre 18 e 35 anos se define como sendo da classe trabalhadora (porcentagem que vem subindo durante os anos da crise). Somente um 33% se sente de classe média neste outro cenário.

A grande maioria dos que se definem como classe trabalhadora apoiaram a candidatura do socialista Bernie Sanders, o candidato outsider do Partido Democrata, que se referiu explicitamente à classe trabalhadora em seu discurso, utilizando este mesmo termo para defini-la. O candidato que surpreendeu nas primárias do Partido Republicano, Donald Trump, também usa uma retórica sobre a para a classe trabalhadora, e o fato que marcou as candidaturas dos dois políticos que acabo de mencionar é que ambos fizeram balançar o establishment (o 20% da população com renda superior) em seus respectivos partidos, que ignorava ou queria ignorar que existia tal classe social, e que desconhecia ou queria desconhecer a grande redução dos níveis de vida de tal classe, algo que vem ocorrendo desde que se iniciou a revolução (ou, melhor dizendo, a contrarrevolução) neoliberal, nos Anos 80.

A proletarização da classe média

Nos Estados Unidos, as novas gerações, que sempre acreditaram que a educação, incluindo a universitária, lhes garantiria um futuro melhor que o de seus pais, viram que aquilo não era correto, pois, depois de realizar seus estudos e se endividar até a médula para alcançar o diploma e esse conhecimento que pensavam ser essa chave de um novo status social, perceberam que a realidade era outra. Os salários para os empregos que se aspiravam não muito mais baixos hoje que há trinta anos, e os muitos que sequer encontram vagas para esses empregos acabam tendo que aceitam outros trabalhos, com salários ainda mais baixos que os que sonhavam. Uma situação que tem sido ainda mais marcante durante esta Grande Recessão (2008-2016). Esta é a causa da grande insatisfação desses jovens e a radicalidade que explica, de novo, o sucesso das candidaturas de Bernie Sanders (que surpreendeu o establishment do Partido Democrata estadunidense, representado por Hillary Clinton) e de Donald Trump (que também quebrou o cálculo dos caciques do Partido Republicano). Hoje, a estrutura de poder está altamente questionada, pois para a grande maioria da classe trabalhadora, cujo tamanho tem aumentado objetiva e subjetivamente, as (mal) chamadas instituições “representativas” perderam sua credibilidade e sua legitimidade.

E isso também está ocorrendo na França (onde o partido com maior apoio eleitoral entre a classe trabalhadora é o partido de Marine Le Pen), no Reino Unido (onde a maioria da classe trabalhadora apoiou o brexit), na Espanha (onde a maioria dos jovens apoiam o Podemos), e um longo etc. A classe trabalhadora, embora não apareça nos meios, continua existindo. E aos que não acreditam nisso, recomendo que esperem a evolução dos acontecimentos políticos na Europa, e logo verão.

* Catedrático de Ciências Políticas e de Políticas Públicas da Universidade Pompeu Fabra. Ex-professor de Economia da Universidade de Barcelona. Artigo escrito para Público.es

Tradução: Victor Farinelli




Créditos da foto: Reprodução


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