Daniela Fernandes
De Paris para a BBC Brasil

Image copyrightTHINKSTOCKImage captionAssociação muçulmana alugou parque aquático e pediu que mulheres se cubram até os joelhos

Um evento organizado em um parque aquático no sul da França está provocando polêmica por exigir que as mulheres usem "burkini", roupa de banho islâmica que só deixa o rosto, as mãos e os pés à mostra. Políticos de direita e de esquerda criticam a iniciativa e pedem que ela seja proibida.

Apenas mulheres e crianças (garotos só até dez anos) podem participar do evento organizado pela associação muçulmana Smile 13, de Marselha, que alugou o parque aquático Speed Water, em uma cidade próxima.

O evento está agendado para 10 de setembro. A Smile 13 afirma que como os salva-vidas no local são homens, as participantes não poderão usar biquínis e deverão respeitar os preceitos de pudor do islã.

"Conto com vocês para respeitar a awra (partes do corpo que não podem ser mostradas) e não usar biquíni. As partes devem ser cobertas do peito até os joelhos", diz o convite, publicado na página Facebook da associação.

Como o local foi privatizado, a Smile 13 afirma ainda no convite que o parque aquático autorizou excepcionalmente o banho de piscina em "burkini" ou "jilbeb" (roupa islâmica que cobre da cabeça até os pés). E explica que esse tipo de vestimenta se impõe em razão da presença dos salva-vidas homens.

Em piscinas públicas na França não é permitido reservar uma data exclusivamente para mulheres e impor o uso de vestimentas religiosas em razão da lei da laicidade no país, que determina a separação entre o Estado e a Igreja.

Os preparativos da Smile 13 ocorrem em um local privado e, na prática, não são ilegais. Mas provocaram uma avalanche de críticas no país e discussões sobre liberdade religiosa.


Provocação

Michel Amiel, prefeito de Pennes-Mirabeau, cidade de 20 mil habitantes ao norte de Marselha, onde fica o parque aquático, se diz "chocado" com esse evento.

Image copyrightTHINKSTOCKImage captionMarcas ocidentais lançaram coleções de 'burkinis'

Amiel, que também é senador, disse que irá publicar um decreto municipal proibindo sua realização, com o argumento que a iniciativa pode causar "distúrbios à ordem pública".

"Considero esse evento uma provocação. Não precisamos disso no contexto atual", diz o prefeito, sem partido, mas historicamente ligado à esquerda, se referindo aos recentes atentados na França reivindicados pelo grupo autodenominado Estado Islâmico.

"Trata-se de uma questão de dignidade da mulher e do respeito de nossos princípios fundamentais", diz a deputada Valérie Boyer, do partido Os Republicanos, da direita.

A Smile 13 se diz surpresa com a polêmica. "A França é um país falsamente livre. Certas mulheres não podem se banhar nesse parque normalmente porque elas têm convicções religiosas e não desejam se desnudar diante de outras pessoas", diz a tesoureira da associação, Mélisa Thivet.

A direção do parque informou, em comunicado, "ser livre para privatizar seu espaço aquático, como poderia reservar um salão de festas para um casamento, sem levar em conta o culto religioso".

A direção do Speed Water informa ainda não querer "tomar parte em um debate de opinião", mas entende a repercussão "em um contexto emocionalmente difícil" na França.


Moda

Marcas ocidentais, como a sueca H&M e a inglesa Marks & Spencer, lançaram coleções de "burkinis" na Europa e também de véus islâmicos, o que também provocou polêmica.

Para a ministra do Direito das Mulheres da França, a socialista Laurence Rossignol, essa moda "promove o ocultamento do corpo das mulheres".

BBC Brasil
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Ronaldo

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