Outras Palavras e Canal Mova lançam entrevistas em vídeo para enfrentar a grande enrascada brasileira formulando alternativas. Celso Amorim abre a série: “não estamos condenados à pequenez!”

Por Antonio Martins

Dois meses após o golpe parlamentar que levou ao poder um projeto várias vezes rejeitado pelas urnas, o cenário é de devastação. Por não ter pretensões eleitorais futuras, o governo Temer avança sobre direitos sociais e conquistas históricas sem pudores ou vacilações. Sente-se confortável pra mirar tanto objetivos imediatos (como ocongelamento dos gastos sociais) quanto para promover retrocessos estratégicos (entrega do pré-sal, privatizações irrestritas, ataque aos direitos previdenciários e às garantias conquistadas pelos trabalhadoreshá décadas). Conta com confortável maioria parlamentar. Bloqueia o debate público de seus atos graças à blindagem de uma mídia que, agora, julga razoável tais medidas serem comandadas por um ministério repleto de denunciados pela Lava Jato. Desnorteada, a esquerda institucional ajuda a eleger, para a presidência da Câmara, um deputado claramente comprometido com o programa das contra-reformas. Como recuamos tanto, tão rapidamente? Como sair desta enrascada?

Em parceria com a produtora de vídeos Mova Filmes, Outras Palavraslança esta semana uma iniciativa que busca ajudar a encontrar respostas. Uma série de entrevistas, com pensadores e ativistas que se destacam pela profundidade e pelo compromisso com as lutas sociais, serão convidados a refletir sobre outro projeto para o país. A sequência é aberta por Celso Amorim, ex-ministro das Relações Exteriores. Ao comentar o abandono da postura internacional ativa e o retrocesso à velha posição subalterna, comandados por José Serra, Amorim reage e dispara: “Não estamos condenados à pequenez”.

Reconstruir um novo projeto nacional é indispensável por ao menos duas grandes razões. A primeira prende-se aos erros do passado recente. Aos poucos, fica claro: entre 2003 e 2016, o Brasil viveu um período de mudanças sociais importantes – porém, frágeis e superficiais. As estruturas que asseguraram cinco séculos de dominação jamais foram arranhadas. Preservou-se o sistema político oligárquico, o poder da aristocracia financeira, as isenções e privilégios tributários dos mais ricos, a concentração da propriedade da terra, o oligopólio que controla as comunicações de massa. Acreditou-se ingenuamente que poderiam seguir a orientação dos novos governos. Quando os verdadeiros donos do poder enxergaram uma conjuntura favorável, foi-lhes muito fácil livrar-se dos intrusos no Planalto e ministérios.

Mas se as reformas estruturais foram por tanto tempo adiadas, é porque se acreditou que não era necessário pensar um outro país. Bastava lutar para que, mantidas as mesmas dinâmicas, uma parcela maior da riqueza nacional fosse apropriada pelos desfavorecidos. Não se tratava de questionar a submissão das cidades ao automóvel – mas de estender a todos a chance de comprar um carro novo. Não era o caso de questionar o controle da terra pelo agronegócio (e todas as suas consequências devastadoras), mas de garantir que ninguém passasse fome, e que a proteína animal comparecesse mais vezes no prato de cada brasileiro.

A segunda razão crucial para Outro Brasil é a potência incompleta das novas lutas sociais – que têm como marco o Junho de 2013. Ecos das Jornadas continuam a ressoar. Reverberam hoje nas ocupações urbanas (dos sem-teto, dos secundaristas, dos produtores culturais). Ressurgem nos que teimam em acompanhar e solidarizar-se à luta indígena. Refermentam-se nos coletivos de jovens dispostos a articular trabalho profissional com ações pelo Direito á Cidade. Reaparecerão, em breve – agora com cheiro de multidão — nas campanhas dos trabalhadores para defender os direitos previdenciários e laborais, que o governo ilegítimo tentará atropelar com ímpeto, caso o golpe seja consumado.

Mas não parece claro, igualmente, que estas lutas precisam tramar um horizonte coletivo? Que país novo construiremos, se nos limitarmos a atitudes de defesa? Uma escola sem as velhas relações hierárquicas; um plano de preservação da Amazônia preservando a natureza e as culturas dos povos originários; uma nova inserção do Brasil na divisão internacional do trabalho e da produção; uma modelo agrícola que nos livre dos agrotóxicos e trasngênicos; cidades onde Centro e Periferia não sejam reencarnações de Casa Grande e Senzala – nada disso sera possível sem a dura tarefa de voltar a formular um projeto de pais. De enxergar tanto as forças sociais reprimidas que ele poderá liberar quanto as resistências que enfrentará; os caminhos para vencê-las;. as possíveis brechas no cenário mundial e brasileiro.

* * *

Por diversos motivos, uma entrevista com o ex-chanceler Celso Amorim abre Outro Brasil. A vocação internacional de Outras Palavras é evidente. Acreditamos que não e possível enxergar os problemas estratégicos do Brasil sem situá-los – para o bem e para o mal – na dinâmica do capitalismo globalizante. Breves exemplos: dois dos setores que mais devastaram o pais, e que mais elegeram parlamentares favoráveis ao impeachment – agronegócio e mineração – agigantaram-se devido a um cenário internacional que inflacionou os preços dos produtos primários e deu força politica inédita a seus “lideres”. Em contrapartida, movimentos sociais e culturais de todo o planeta inspiraram-se, no inicio do seculo, na luta pós-industrial do MST, na resistência à ALCA tramada durante os Fóruns Sociais Mundiais, ou nas inovações de Gilberto Gil à frente do ministério da Cultura.

Outro fato determinou nossa opção por Amorim. Chanceler nos dois governos Lula, ele protagonizou, junto com o então presidente, uma espécie de exceção transformadora. Em sua área, houve de fato uma virada estrutural. O Brasil abandonou a posição da subalternidade às potências hegemônicas – estabelecida desde a Colônia – e ensaiou no mundo sua condição diversa, mulata e, em certo sentido, molequecontra os poderes estabelecidos.

A primeira vítima foi a ALCA – área de “livre” comércio sob a qual os EUA pretendiam submeter o continente. Foi uma satisfação acompanhar, na metade da década passada, os lances em que Amorim desarmou as armadilhas pouco a pouco. Trabalhou com mão sutil de quem evita o confronto direto com o inimigo mais poderoso – mas esgota as forças deste submetendo-o ao peso de suas próprias contradições.

O chanceler não se limitou, no entanto, à defesa eficiente. Num mundo marcado pelos riscos de consolidação da ordem imperial, participa ativamente da construção de saídas. Esteve presente em cada um dos atos que constituíra o BRICS – antecipado pelo Ibas. Ajudou c cimentar a Unasul, uma articulação sulamericana que nega, enquanto existir de forma autônoma, a condição de quintal de Washington a que a região estava resignada. Ousou o inédito: por exemplo, a reunião inédita em 2010, em Brasília, entre América do Sul e Mundo Árabe, que contrariava tanto geopolítica quanto geografia tradicionais.

Celso Amorim aborda todos estes temas, na entrevista que fizemos em seu apartamento à beira do mar de Copacabana, no final de maio. Em quase duas horas, ficam claros tanto a criatividade de suas iniciativas quanto a pequenez do retrocesso ensaiado agora por José Serra. A conversa não é um elogio dos governos de que o chanceler participou Amorim reconhece, por exemplo, que os esforços para tornar a América do Sul mais independente, do ponto de vista geopolítico, foram contrarrestados pelo retrocesso dos países da região à condição de exportadores de produtos primários.

Ainda assim, sua diplomacia altiva e ativa produziu enormes resultados. Segue como um dos sinais de Outro Brasil – possível e, em muitos sentidos, indispensável.

Conseguiremos construí-lo juntos? É a grande pergunta a ser respondida nas próximas décadas. A resposta só poderá ser construída coletivamente. Outro Brasil expressa, desde já, nosso esforço, nosso desejo e nossa aposta.

Outras Palavras
Axact

Ronaldo

Blogueiro e livreiro, reproduzo as notícias que considero interessante para os amigos e disponíbilizo meu acervo de livros para possíveis clientes. Boa leitura e boas compras.

Poste aqui o seu comentário:

0 comments:

-Os comentários reproduzidos não refletem necessariamente a linha editorial do blog
-São impublicáveis acusações de carácter criminal, insultos, linguagem grosseira ou difamatória, violações da vida privada, incitações ao ódio ou à violência, ou que preconizem violações dos direitos humanos;
-São intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença;
-É inaceitável conteúdo comercial, publicitário (Compre Bicicletas ZZZ), partidário ou propagandístico (Vota Partido XXX!);
-Os comentários não podem incluir moradas, endereços de e-mail ou números de telefone;
-Não são permitidos comentários repetidos, quer estes sejam escritos no mesmo artigo ou em artigos diferentes;
-Os comentários devem visar o tema do artigo em que são submetidos. Os comentários “fora de tópico” não serão publicados;