E se o grande promotor do impeachment decidir abrir a boca a respeito do vice-presidente que promoveu à Presidência interina? 
 
por Mauricio Dias
 


Antonio Cruz / Agência Brasil // Eduardo Cunha e Michel Temer em novembro


Brasília, em recesso parlamentar, reduziu as possibilidades de circulação das banais intrigas políticas. A capital do País, no entanto, aguarda ansiosa a chegada de agosto, que, no calendário da República, é considerado o mais cruel dos meses. Justificam essa referência, entre outras coisas, o suicídio de Getúlio Vargas, em 1954, e a renúncia de Jânio Quadros à Presidência, em 1961.

Agosto rapidamente aproxima-se com dois problemaços na pauta.

Um deles é o impeachment, sem crime, contra Dilma Rousseff, temporariamente afastada do governo. O impedimento na verdade é um golpe ainda não consolidado. Os golpistas tentam anular 54 milhões de votos que reelegeram a presidenta, em 2014.

O segundo problema é o julgamento do deputado Eduardo Cunha, afastado temporariamente do mandato por decisão do Supremo Tribunal Federal.

Cunha já é réu no STF. Lá responde a vários processos. Entre eles, o de comandar grande derrame de dinheiro sujo no universo político-partidário, entre outros crimes. Por ter mentido aos deputados, na CPI da Petrobras, ao garantir que não tinha dinheiro fora do País, ele tropeçou na inverdade. Por isso foi condenado na Comissão de Ética da Câmara.

Posteriormente renunciou à presidência da Casa para tentar poupar o mandato. Errou a manobra. Vai ser degolado pelos próprios pares em sessão marcada para a segunda quinzena de agosto.

Dilma e Cunha, por razões bem diferentes, projetam um período de muitos receios para o presidente interino, Michel Temer.

Os movimentos de resistência adotados por Dilma ao longo das viagens por vários estados, quando prega contra o golpe, perturbam as noites de sono de Temer.

Os números governam essa questão do afastamento dela. Na Comissão Especial do Senado, onde é julgada, Dilma pode alcançar os 27 votos dos 81 senadores e voltar a governar.

A chegada de Temer à interinidade presidencial, sem voto e sem apoio dos movimentos sociais, foi determinada pelas ações iniciais de Eduardo Cunha, já então no exercício da presidência da Câmara dos Deputados.

Ao iniciar a vida parlamentar, Cunha parecia uma figura inexplicável, ou indecifrável. Após quatro mandatos consecutivos na Câmara dos Deputados, a imagem dele no mundo político é explicada por meio de um punhado de adjetivos: audaz, astuto, nefasto, ousado, rancoroso. Marcadamente silencioso. Implacável com os adversários, sempre mostrou uma lealdade canina com os aliados. Alguns deles, cúmplices.

A vida, no entanto, é escrava das circunstâncias. Após ser alcançado pelo braço da Operação Lava Jato, Cunha, um evangélico que mistura religião e política, está ameaçado de ser banido do paraíso. Mais do que isso. A mulher e a filha podem ir junto. As duas estão enroladas nas tramas armadas pelo marido e pai.

Com esse trunfo, o juiz Sergio Moro pode ter estabelecido um jogo de paciência. Talvez já percebido por Cunha. E se ele falar, Michel Temer dança.
 
Axact

Ronaldo

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