O presidente interino apresenta um Brasil com 'democracia consolidada e uma referência em matéria de redução das desigualdades'


Leneide Duarte-Plon, de Paris*





« O Brasil está perfeitamente pronto ».

Quem poderia afirmar isso sobre os jogos olímpicos lendo a chamada « grande » imprensa ou os blogs alternativos de jornalismo independente ?

Ele, o presidente interino Michel Temer, que publicou no « Le Monde » um artigo ufanista com o título acima. Ele desmente os riscos sanitários e securitários na cidade que vai receber milhares de atletas e de turistas durante o mês de agosto.

Mas apesar de longe da realidade, ainda se compreende que ele queira tranquilizar o público externo.

O que choca é quando ele se apropria dos feitos dos governos petistas depois de louvar a « democracia consolidada ». Segundo ele, os jogos revelarão um país que « é uma referência em matéria de redução das desigualdades ». Retórica para leitor francês que pode ser levado a pensar que foi graças aos esforços dele e de seu partido que o Brasil reduziu as desigualdades.

Seu texto transbordante de entusiasmo ressalta « o sucesso da Copa do Mundo, dos jogos mundiais militares, das jornadas mundiais da juventude e da Copa das confederações ». E na empolgação continua :

« Os Jogos revelarão ao mundo uma nação cuja democracia está consolidada e que é uma das principais economias mundiais. Um país com forte potencial de negócios e uma referência em matéria de redução das desigualdades. »

« Democracia consolidada » na visão do presidente interino foi o resultado não dos votos do povo mas da união sagrada do Legislativo mais corrupto do planeta com o Judiciário que se aliou à casa grande para pôr no Executivo um legítimo representante dos interesses da oligarquia que governa de fato desde sempre.

Jogos deixarão herança

Ele garante ao leitor do « Le Monde » que os recursos investidos nos jogos olímpicos « deixarão uma herança para o conjunto do país ». Esqueceu de completar que os recursos investidos nos jogos deixarão como herança menos hospitais, menos médicos, menos escolas e menos salários para os professores.

Nem uma palavra sobre a falência do Estado do Rio. No mundo ideal do vice-presidente eleito, no Rio de Janeiro os “jogos tiveram papel importante na implantação de políticas públicas. O fato que organiza esse evento permitiu à cidade acelerar e ampliar ou viabilizar a execução de certos projetos de infraestruturas e mobilidade urbana. Essas ações incidem diretamente de forma positiva sobre a qualidade de vida dos habitantes ».

Como é que os cariocas, cegos ou de má-fé, não veem isso ?

Depois de discorrer sobre as notícias negativas espalhadas pelo mundo quanto a epidemias e doenças tropicais que ameaçariam os turistas e atletas, o presidente interino é categórico : « Podemos garantir como já fez a Organização mundial de Saúde que o risco de aparição de casos de Zika durante os jogos olímpicos é praticamente inexistente ».

Felizmente, os responsáveis pelo « Le Monde » ainda fazem jornalismo. Na mesma página, o historiador Laurent Vidal escreve um artigo exemplar que termina dizendo :

« O que se passa no Brasil é o ressurgimento de uma forma clássica de golpe de Estado. E pode-se dizer, com Corneille, que nesse sistema político sem fôlego « nunca um golpe de Estado foi tão bem executado » (A morte de Pompeia).

* Leneide Duarte-Plon é autora de « A tortura como arma de guerra-Da Argélia ao Brasil : Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado » (Editora Civilização Brasileira)


Créditos da foto: Beto Barata/PR


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