“Não vou deixar a porta entreaberta. Vou escancará-la ou fechá-la de vez. Porque pelos vãos, brechas e fendas... passam semiventos, meias verdades e muita insensatez”. (Cecília Meirelles)

No primeiro jogo importante depois da grande derrota na votação do impeachment na Câmara, a oposição ao governo interino ainda não tem estratégia nem unidade para a escolha do sucessor de Cunha na quarta-feira. A escolha não pode ser apenas a do nome mais lustroso ou menos servil a Temer. Deve avaliar também o comprometimento do eleito com a agenda do retrocesso que vinha sendo implementada, com apoio de Cunha, pelos reacionários da bancada BBB: Boi, Bala e Bíblia. A pedido de Temer eles baixaram a bola, mas depois retomarão bandeiras contra mulheres, índios, homossexuais, fim do estatuto do desarmamento e semelhantes. Devia também a oposição fazer seu jogo buscando desmascarar o PSDB e o PSB, cobrados por Temer a apoiar o candidato de Cunha e do Centrão, Rogério Rosso. Mas, no PT e no PC do B, vai se fortalecendo é a tendência a apoiar Rodrigo Maia, do DEM, contra os que defendem abstenção ou apoio ao peemedebista independente Marcelo de Castro.

Ainda na manhã desta segunda-feira, a líder da minoria, Jandira Feghali, que não concorda com o apoio a Maia, reunirá os vice líderes do bloco composto por seu partido, mais o PT, o PDT e o PT do B (Silvio Costa) para tentarem acertar os ponteiros. No partido de Jandira, Aldo Rebelo e Orlando Silva trabalham por Maia e no PT a divisão é clara:

- Se votarmos a favor de qualquer um destes golpistas que estão no páreo, perderemos a confiança da parte da sociedade que nos apoia na resistência ao golpe – diz o petista Paulo Pimenta.

Mas sua posição, a favor da abstenção e da denúncia do acordão para salvar Cunha, é minoritária na bancada, que também vai se reunir hoje à tarde. A tendência majoritária Construindo um Novo Brasil (CNB) vem articulando o apoio a Rodrigo Maia e até promoveu um encontro dele com Lula. Seu expoente é o ex-líder do governo Dilma, José Guimarães.

Entre os que defendem não apoiar ninguém, como Pimenta, e os apoiadores de Maia, há outro grupo, no bloco da oposição, tentando articular o apoio ao peemedebista Marcelo de Castro. Entre eles o petista Arlindo Chinaglia e Silvio Costa, do PT do B, que se destacou no combate a Cunha e ao golpe como vice-líder de Dilma. Os argumentos deste grupo parecem mais razoáveis para uma oposição ainda zonza pela derrota e que vem sendo massacrada pelo rolo compressor da nova maioria que viabilizou o golpe e a tomada do governo por Temer.

Castro foi ministro de Dilma e votou contra o impeachment. Embora Temer queira o PMDB fora da disputa, para facilitar a vitória do candidato de Cunha e do Centrão, Rogerio Rosso, Castro registrou sua candidatura, criando constrangimento pelo menos para uma minoria peemedebista que ainda julga pertencer a um partido. Diferentemente da maioria dos candidatos, ele não tem “ficha suja”. Se consegue chegar ao segundo turno da disputa, contra o Centrão, PSDB, PPS e PSB, que apoiam o governo mas não se confundem com o bloco de Cunha, vão ter que fazer uma escolha: ou sejam as mãos apoiando Rosso ou ficam contra Temer.

Com cerca de 100 votos, a oposição não está morta. Tem peso para negociar seu apoio. E a escolha é clara: ou fica fora, ou apoia aquele que se comprometer a não impulsionar, como fazia Cunha, a agenda do retrocesso patrocinada pela bancada BBB e a ultra-direita na Câmara.

Nesta agenda estão alguns daqueles projetos que nos sacodem com a pergunta: como pode o Brasil estar retrocedendo tanto em seu avanço civilizatório? Eles tratam, por exemplo, dos seguintes assuntos: revisão da Lei Maria da Penha, mudança na regra de demarcação das terras indígenas, revogação do estatuto do desarmamento, barragem do projeto que suprime os autos de resistência (justificativa da polícia para matar em diligências, alegando legítima defesa), revogação do projeto que criminaliza a homofobia e do que autoriza o uso do nome social por transexuais, aprovação do projeto “escola sem partido”, proibindo conteúdos críticos, formadores do cidadão, que consideram “partidários” ou “esquerdizantes” e outras lorotas mais, bradadas com a bíblia na mão e o revólver na pasta preta. Enfim, uma longa agenda que nos remete às trevas do passado que julgávamos superadas.

Como lembra Paulo Pimenta, todos estes assuntos deixaram de ser objeto de discursos exaltados da direita no plenário. “Está claro que o Temer pediu que deixassem esta agenda de lado até a votação do impeachment. Depois, consumado o golpe, eles voltarão com ela, é claro”.

A oposição, neste momento, devia reler Cecília Meirelles, com sua sabedoria sempre singela.

“Não vou deixar a porta entreaberta. Vou escancará-la ou fechá-la de vez. Porque pelos vãos, brechas e fendas... passam semiventos, meias verdades e muita insensatez”.



Brasil 24/7
Axact

Ronaldo

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