Premiê britânico afirma que não será o "capitão" que levará o Reino Unido a um "novo destino"


PABLO GUIMÓN
Londres


David Cameron demite. REUTERS LIVE


David Cameron não será o “capitão” que levará o Reino Unido ao seu novo destino fora da União Europeia. Esse foi o anúncio feito pelo primeiro-ministro britânico, que não conseguiu convencer os eleitores para que votassem pela permanência, pouco depois do resultado definitivo do referendo que levou ao Brexit. “A negociação precisa de uma liderança firme”, disse, no mesmo púlpito às portas do número 10 de Downing Street onde na quarta-feira proclamou que “os britânicos não fugirão”. O incerto caminho que o país tomará agora, acrescentou, “será com um novo primeiro-ministro”.

O chefe do Governo, de quem veio a decisão de convocar a consulta sobre a permanência de seu país na União, anunciou que renunciará em outubro. Sugeriu durante a campanha que sua intenção era continuar em seu posto não importa o que acontecesse. Mas poucos duvidavam que, caso perdesse, cometeria o absurdo de dirigir o país rumo a um destino contra o qual alertava há meses. Durante a noite de quarta-feira foi confirmada a existência de uma carta de apoio a Cameron, assinada por 84 deputados conservadores, entre os quais se encontravam os próprios Boris Johnson e Michael Gove, os dois velhos amigos que batalharam contra ele nessa luta fratricida e o venceram. A decisão “muito clara” tomada pelos britânicos nas urnas provocou uma rápida reação do perdedor, o que tornou sem sentido essa “operação para salvar Cameron”.

Do legado dos seis anos como primeiro-ministro, cinco à frente de um Governo de coalizão e um respaldado por uma maioria absoluta, Cameron destacou a inegável força econômica de um país que foi prejudicado pela crise econômica e que agora, até quinta-feira, crescia com vigor.

Antes das eleições gerais de maio de 2015, Cameron anunciou que não concorreria às eleições em 2020. O anunciou transformou a campanha do plebiscito em uma mal dissimulada luta por sua sucessão. Ele mesmo, no Congresso do partido em 2015, nomeou três pessoas que deveriam lutar por seu cargo: seu fiel escudeiro e ministro das Finanças, George Osborne; a férrea ministra do Interior, Theresa May, e o heterodoxo ex-prefeito de Londres Boris Johnson.

Esse último decidiu enfrentar o primeiro-ministro defendendo a saída do Reino Unido da UE. Jogou a carta mais arriscada e ganhou. Conta com o apoio popular – nem tanto do aparato político – e agora seu caminho está mais livre de obstáculos. Osborne, que partia como favorito respaldado pelo sucesso econômico, foi severamente prejudicado: aborreceu seus companheiros de partido favoráveis à saída da UE, que o acusaram de exagerar os números irresponsavelmente para evitar tal saída. Com a queda de seu padrinho, suas possibilidades diminuem. Theresa May, por sua parte, sai pouco queimada de uma campanha na qual defendeu a permanência sem muito alarde. Alguns a colocam como a figura sólida e experiente indicada para pilotar o partido rumo à saída do túnel no qual se enfiou. E a campanha lançou outro candidato na rede de apostas: Michael Gove, ministro da Justiça que liderou ao lado de Johnson, mas sem tanta estridência, a vitoriosa campanha da saída da UE.

David Cameron, de 49 anos, parecia intocável. Nenhum outro primeiro-ministro desde 1832 aumentou a porcentagem de votos e o número de cadeiras do partido após cumprir um mandato completo no Governo. Conta, além disso, com uma oposição liderada por alguém que a maioria dos tories considera muito radical para poder ser primeiro-ministro. É o único líder europeu reeleito, melhorando sua porcentagem de votos, após aplicar duras políticas de austeridade. Demonstrou uma proverbial habilidade para sair reforçado das crises. Quis passar à história como o primeiro-ministro que pilotou com sucesso as finanças e resolveu o debate europeu. Mas, paradoxos do destino, provocou a saída de seu país da UE e sai em meio ao caos econômico. Parecia invencível, mas perdeu.

EL PAÍS Brasil
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Ronaldo

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